Entre símbolos, fantasmas e afetos: o ano que morre, o ano que sonha
O fim do ano não é apenas uma convenção do calendário; é um rito. Algo em nós compreende, mesmo sem palavras, que atravessamos um limiar. O tempo se curva, o passado nos olha de volta, e somos obrigados a encarar aquilo que fomos — e o que deixamos de ser. Como lembra Carl Gustav Jung em O homem e seus símbolos, “o inconsciente fala por meio de imagens e símbolos”. O Ano Novo é um desses símbolos arquetípicos: não promete redenção automática, mas convoca à consciência.
Este ano que se despede carrega mortos. Amigos queridos partiram, deixando não apenas saudade, mas perguntas sem resposta. Jung nos ensinou que a morte não é apenas um evento biológico, mas um poderoso símbolo psíquico de transformação. “Aquilo a que resistimos, persiste”, escreveu ele em outro contexto — e resistir ao luto é impedir que ele nos transforme. Honrar os que partiram é permitir que suas ausências nos modifiquem, nos tornem menos superficiais, menos distraídos diante do essencial.
Há, porém, um mundo exterior que também adoece. A Terra agoniza sob o peso da exploração contínua, e esse colapso ambiental reflete, como num espelho junguiano, o colapso interior da modernidade. Em O homem e seus símbolos, Jung alerta que a perda do contato com os símbolos profundos gera sociedades desorientadas, presas ao imediatismo e à destruição. Quando a natureza deixa de ser percebida como algo vivo e passa a ser apenas recurso, algo arcaico e vital se rompe dentro de nós.
Gabriel García Márquez compreendeu isso intuitivamente. Sua obra inteira é uma longa conversa entre memória, tempo e morte. Em Macondo, os mortos nunca se vão completamente; eles circulam, falam, observam. Em Memória de minhas putas tristes, a velhice não é retratada como decadência pura, mas como um tempo tardio de revelação. O narrador, às portas da morte, descobre que ainda é possível amar — e que amar, mesmo no fim, é uma forma de resistência contra o vazio.
Essa lição é preciosa para o Ano Novo. Vivemos uma civilização que idolatra a juventude, o lucro e a velocidade, mas teme o silêncio, a velhice e o fim. Márquez nos lembra que o tempo não é apenas cronologia; é densidade. Cada ano vivido sem reflexão é um ano desperdiçado. Cada perda não elaborada retorna como fantasma — pessoal ou coletivo.
Jung afirmava que “tornar-se consciente de si mesmo é um processo doloroso”. Talvez por isso tantos prefiram a euforia artificial das festas à introspecção honesta. Mas nenhum novo ciclo será verdadeiramente novo se não enfrentarmos nossas sombras: a indiferença social, a destruição ambiental, a normalização da brutalidade, o esquecimento dos mortos.
Ao saudarmos o Ano Novo, somos chamados a um pacto simbólico: reconciliar-nos com a Terra, com nossa história e com nossos afetos. Reconhecer que não somos senhores do mundo, mas parte dele. Que a memória — pessoal e coletiva — não é um fardo, mas um guia. Que os amigos que partiram continuam falando conosco, como nos romances de Márquez, desde que saibamos escutar.
Que o novo ano não seja apenas mais um número, mas um movimento de individuação, no sentido mais profundo que Jung lhe deu: tornar-nos inteiros. Menos fragmentados, menos predatórios, mais humanos. Porque, no fim, como ensinam Jung e Márquez por caminhos distintos, só atravessa o tempo quem aprende a dar sentido à própria finitude.
Que venha o Ano Novo — não como promessa vazia, mas como símbolo vivo de responsabilidade, memória e esperança lúcida.






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