Ormuz, a vitrine do risco global; no Brasil, o choque chega pelo diesel
A tensão no Estreito de Ormuz revela como gargalos logísticos de energia podem afetar preços globais e chegar rapidamente ao mercado brasileiro de combustíveis.
Conflitos no Oriente Médio raramente permanecem restritos à geografia da guerra. Quando a tensão atinge rotas estratégicas de energia, o impacto atravessa oceanos e chega rapidamente à economia global.
Foi o que voltou a acontecer nas últimas semanas. A escalada envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã recolocou no centro da geopolítica energética mundial o Estreito de Ormuz, passagem por onde transita cerca de um quinto de todo o petróleo transportado por via marítima no planeta, segundo estimativas da Agência Internacional de Energia (IEA). Não é preciso que o fluxo seja interrompido para que o mercado reaja. Basta que a ameaça seja considerada plausível.
No mercado de petróleo, o preço funciona um pouco como o seguro de um carro. Se o bairro fica mais perigoso, o valor da apólice sobe — mesmo que o carro continue seguro na garagem. O mercado não espera o combustível faltar para reagir; ele cobra mais caro hoje pelo risco de que ele falte amanhã.
O efeito não fica restrito aos mercados financeiros.
Pode parecer um conflito distante. Mas quando um navio é ameaçado no Oriente Médio, o frete internacional sobe, o diesel encarece e esse efeito acaba chegando também às economias locais. O custo do transporte aumenta, a logística fica mais cara e, pouco a pouco, isso aparece no preço das coisas do dia a dia. É por isso que ampliar a produção de energia no próprio país — inclusive em novas fronteiras como a Margem Equatorial — também significa reduzir a exposição do Brasil às crises que acontecem do outro lado do mundo.
É nesse momento que surge o chamado prêmio de risco geopolítico — um valor adicional incorporado ao preço do barril quando investidores passam a considerar a possibilidade de interrupções no fornecimento global. O impacto, porém, não se limita ao petróleo em si. Quando rotas estratégicas entram em risco, seguradoras elevam prêmios para navios que transitam na região, rotas marítimas são redirecionadas e o custo do frete internacional tende a subir, pressionando cadeias logísticas e o comércio global. Commodities que dependem dessas mesmas rotas, como gás natural liquefeito (GNL) e fertilizantes produzidos no Golfo, também passam a operar sob maior volatilidade de preços.
Nos últimos dias, esse mecanismo voltou a operar com força. O petróleo tipo Brent, principal referência internacional, ultrapassou a marca de US$ 80 por barril, aproximando-se da faixa de US$ 85, refletindo justamente essa combinação de risco geopolítico, custos logísticos mais altos e incerteza sobre o fluxo no Golfo Pérsico.
Como observa o historiador Daniel Yergin, em momentos como esse a pergunta central deixa de ser apenas “quanto petróleo existe no mundo?”, e passa a ser “quanto pode deixar de chegar ao mercado — e por quanto tempo?”. A história econômica mostra que choques de petróleo costumam acompanhar períodos de instabilidade internacional. O embargo árabe de 1973, a Revolução Iraniana em 1979 e a invasão do Kuwait em 1990 produziram movimentos semelhantes, nos quais a percepção de risco elevou rapidamente o preço da energia e pressionou economias ao redor do mundo. Mesmo quando a produção global não cai drasticamente, o simples risco de interrupção já altera expectativas, rotas comerciais e decisões de investimento.
É nesse ponto que o debate global encontra o Brasil. O país tornou-se um grande exportador de petróleo nas últimas duas décadas, impulsionado pelo desenvolvimento do pré-sal. A Petrobras, que voltou a figurar entre as empresas de maior valor de mercado da América Latina — superando recentemente US$ 100 bilhões em valor de mercado — reflete a competitividade de seus ativos e a forte geração de caixa da indústria petrolífera brasileira.
Cerca de 20% da demanda nacional por derivados é atendida por importações, especialmente no caso do diesel, combustível que sustenta grande parte da logística e da produção agrícola do país. Estimativas recentes indicam que o diesel vendido no mercado doméstico chegou a apresentar defasagem superior a 40% em relação às cotações internacionais, o que reacende o debate sobre política de preços e segurança de abastecimento.
Não por acaso, a atual escalada geopolítica também trouxe de volta discussões internas sobre alternativas energéticas e redução da dependência de importações. Entre elas está a proposta de ampliar a mistura obrigatória de biodiesel no diesel para 16%, hoje ela está em 14%, tema que depende de decisão do Conselho Nacional de Política Energética.
Essas discussões revelam algo importante: crises energéticas globais frequentemente aceleram decisões domésticas. No fundo, o que está em jogo vai além do preço do barril. O que se discute é a fragilidade estrutural de um sistema energético global que ainda depende de poucos gargalos logísticos e regiões politicamente instáveis. Quando esses pontos entram em tensão, o impacto se espalha rapidamente pela economia mundial.
Nesse contexto, regiões capazes de ampliar a oferta de energia tendem a ganhar importância estratégica. O Brasil, que combina uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo com reservas petrolíferas competitivas, ocupa uma posição singular nessa equação. E novas fronteiras exploratórias, como a Margem Equatorial, passam a ganhar relevância justamente em momentos em que o sistema energético global busca diversificar suas fontes de abastecimento.
A guerra no Oriente Médio pode ou não redefinir o equilíbrio do mercado nos próximos meses. Mas seus efeitos já estão em curso. O prêmio de risco voltou ao preço do petróleo, rotas estratégicas entraram em tensão e ataques a ativos energéticos — como estruturas ligadas à Aramco — mostram que o alvo não é apenas militar, é econômico.
Energia continua sendo um dos nervos centrais da economia global. Quando ela entra em disputa, o impacto não fica restrito ao campo de batalha: ele aparece nos mercados, nos custos de transporte, nas cadeias logísticas e, inevitavelmente, nos preços que chegam ao consumidor.
Ormuz se tornou, mais uma vez, a vitrine dessa fragilidade estrutural. Em um sistema energético ainda dependente de poucos gargalos geográficos, basta que um deles entre em tensão para que o mundo inteiro sinta os efeitos.
No fim, crises como essa apenas reafirmam uma verdade antiga da geopolítica: quem controla energia não controla apenas recursos — controla a estabilidade econômica.
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Elissandro Araújo é professor, palestrante e especialista em energia, governança pública e corporativa e desenvolvimento regional.





