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O Brasil produz petróleo, mas ainda não aprendeu a usá-lo


Quando o barril ultrapassa US$100, o problema não é o preço do petróleo. É o que revela sobre nossa fragilidade estrutural

O petróleo Brent ultrapassou US$100 por barril, chegando a US$120 na semana passada, com leve recuo nos últimos dias para a faixa de US$95–100. Os mercados reagiram como costumam reagir: com volatilidade, manchetes e análises sobre guerra, oferta e expectativas.

Mas há uma pergunta que quase ninguém faz nessas horas — e que, para o Brasil, é a mais importante de todas:

Se somos um dos maiores produtores de petróleo do mundo, por que ainda ficamos à mercê de crises que deveríamos conseguir atravessar com muito mais tranquilidade? A resposta revela uma contradição que o país ainda não teve coragem de enfrentar diretamente. 

Existe algo que os economistas raramente explicam com clareza: crises energéticas raramente começam como crises inflacionárias. Elas começam como crises logísticas.

Quando tensões geopolíticas ameaçam rotas marítimas estratégicas, o primeiro efeito não aparece no supermercado. Ele aparece no frete. Navios desviam de rotas, seguros marítimos disparam, prêmios de risco de guerra encarecem o transporte. Não é abstrato: com o tráfego pelo Estreito de Ormuz praticamente paralisado nos últimos dias, as tarifas de afretamento de superpetroleiros para a China já ultrapassaram US$424 mil por dia. Esse custo extra começa a se mover silenciosamente por cadeias produtivas inteiras — grãos, fertilizantes, metais, componentes industriais.

O petróleo é apenas o gatilho. A inflação é o destino. O exemplo mais recente é preciso: em 2022, após a invasão da Ucrânia, o Brent ultrapassou US$120 por barril e o gás natural europeu atingiu níveis recordes. Nos meses seguintes, a inflação na zona do euro chegou a 10,6% ao ano — o maior patamar desde a criação da moeda comum. Estudos do Fundo Monetário Internacional estimam que o aumento dos preços de energia respondeu por quase metade dessa inflação.

O mecanismo é sempre o mesmo: começa no frete, avança pelos custos de produção, termina no preço do que você compra no mercado. Lento o suficiente para parecer inevitável. Rápido o suficiente para ser difícil de conter.

Agora voltemos ao Brasil — e à contradição que mencionei no início.

O país é hoje um dos maiores produtores de petróleo do mundo. O pré-sal transformou nossa posição no tabuleiro energético global. Em teoria, deveríamos estar entre os países mais isolados dos efeitos de uma crise como a atual. Na prática, não estamos.

Dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP) mostram que cerca de 20% do diesel consumido no Brasil ainda precisa ser importado para complementar a produção nacional de refino. E o diesel não é apenas um combustível — é a espinha dorsal do nosso sistema logístico. Segundo a Confederação Nacional do Transporte, aproximadamente 65% de toda a carga transportada no Brasil usa o modal rodoviário, altamente dependente desse insumo.

Traduzindo: quando o preço internacional do petróleo sobe, o frete sobe. Quando o frete sobe, os alimentos sobem. Quando os alimentos sobem, a inflação sobe — e quem paga o preço são os mais vulneráveis.

Um país que extrai petróleo do fundo do oceano, mas não consegue refinar combustível suficiente para seu próprio transporte, não é um país energeticamente soberano. É um exportador de matéria-prima que ainda depende do mercado internacional para funcionar.

Há uma diferença fundamental entre tratar energia como commodity e tratá-la como soberania. Quando um país trata energia como commodity, sua lógica é simples: extrair, exportar, lucrar. O preço é definido pelo mercado internacional, e as vulnerabilidades internas ficam em segundo plano. Essa lógica faz sentido nos períodos de estabilidade global — e expõe o país nos momentos em que ela termina.

Quando um país trata energia como soberania, a lógica muda: a prioridade não é apenas produzir, mas garantir que sua infraestrutura de refino, armazenamento, distribuição e diversificação seja robusta o suficiente para atravessar períodos de turbulência com autonomia.

Historicamente, o Brasil oscilou entre as duas lógicas — e nos momentos de crise, a conta dessa oscilação aparece no preço do frete, do pão e da conta de luz.

Como observa o historiador de energia Daniel Yergin — referência global no setor —, o mercado atual é mais diversificado e resiliente do que era nos grandes choques do século passado. A expansão americana de petróleo e gás, o crescimento do comércio global de gás natural liquefeito e os estoques estratégicos de diversas nações criaram amortecedores importantes. Mas, resiliência global não substitui autonomia nacional.

A crise atual pode se dissipar. As tensões geopolíticas podem diminuir. O barril pode recuar abaixo de US$80. Quando isso acontecer, o debate sobre nossa fragilidade estrutural voltará ao silêncio — até a próxima crise.

Esse é o padrão que precisa ser rompido.

Países que tratam energia como questão estratégica tendem a sair de crises em posição mais forte do que entraram. Não porque estejam imunes aos choques, mas porque cada crise os obriga a construir mais capacidade, mais autonomia, mais resiliência.

A resposta coordenada desta semana é um exemplo preciso: a Agência Internacional de Energia mobilizou 32 países para liberar reservas estratégicas em conjunto. O Brasil não é membro da AIE. Não participou.

O Brasil tem petróleo, tem potencial renovável, tem capacidade industrial. O que falta não é recurso — é decisão. E enquanto essa decisão não vem, continuamos fazendo o que fazemos em cada nova crise: exportar barris, importar vulnerabilidades.

Elissandro Araújo é professor, palestrante e especialista em energia, governança pública e corporativa e desenvolvimento regional.


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Elissandro Araújo

Professor, palestrante e especialista em energia, governança pública e corporativa e desenvolvimento regional.



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