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O Brasil gera energia limpa. E joga fora.


Enquanto o mundo entra na Era da Eletricidade, o país desperdiça bilhões por falta de infraestrutura — e revela um problema que não é técnico, é estrutural.

Em fevereiro, antes de Ormuz dominar manchetes e o barril escalar acima de US$100, a Agência Internacional de Energia publicou o Electricity 2026. O relatório não falava sobre a crise que viria. Mas descrevia com precisão o mundo em que ela chegou.

A demanda global por eletricidade cresce pelo menos 2,5 vezes mais rápido do que a demanda total de energia até 2030 — o que a IEA classifica formalmente como a chegada da Era da Eletricidade. Os motores são conhecidos: eletrificação industrial, veículos elétricos e a explosão de data centers movidos por inteligência artificial. O consumo mundial de eletricidade deve saltar de 28.200 TWh em 2025 para 33.600 TWh em 2030 — um acréscimo anual equivalente a 50% a mais do que a média da última década.

Não é projeção de longo prazo. É o presente. O mundo que vai determinar quem prospera nas próximas décadas não será dividido entre países que têm petróleo e países que não têm. Será dividido entre países que conseguem gerar, transmitir e distribuir eletricidade limpa de forma eficiente — e países que não conseguem.

Nessa divisão, onde o Brasil se encaixa? A resposta honesta é: em dois lugares ao mesmo tempo.

Do lado da geração, o Brasil é um caso raro de sucesso estrutural. A matriz elétrica tem 88% de fontes renováveis. Solar cresceu 39,6% só em 2024. A energia solar fotovoltaica será a fonte que mais crescerá no mundo até 2030, e o Brasil já é um protagonista consolidado nesse movimento. Em qualquer ranking de transição elétrica entre economias emergentes, o país aparece entre os primeiros.

Do lado da infraestrutura, o cenário é outro. Em 2025, o Brasil desperdiçou 20% de toda a energia solar e eólica produzida — equivalente a R$ 6,5 bilhões em energia limpa descartada por 1.500 usinas renováveis, das pequenas às grandes. Os piores meses foram agosto, setembro e outubro. Uma consultoria especializada descreveu o fenômeno assim: era como assistir a uma Itaipu sendo desligada — não por falta de água, mas por excesso de sol e vento.

A trajetória dos cortes não deixa dúvida sobre a gravidade: 0,5% em 2022, 3,6% em 2023, 9,3% em 2024, 20,6% em 2025. Se nada for feito, a sobreoferta poderá responder por 96% do desperdício em três anos.

O problema tem nome técnico: curtailment. Mas sua natureza é estratégica.

Metade dos cortes ocorreu por sobreoferta — quando o consumo não acompanha a geração. A outra metade por limitações da infraestrutura de transmissão. Em termos simples: o Brasil construiu usinas sem construir o sistema capaz de usar o que elas produzem.

Ao meio-dia, a capacidade solar instalada supera a carga total do sistema elétrico nacional. Energia limpa, gratuita, disponível — e sem para onde ir. Nas mesmas horas, termelétricas mais caras e mais poluentes continuaram sendo acionadas em outras regiões do país, sob bandeira tarifária vermelha. Geramos demais no lugar errado, consumimos de menos no lugar certo e pagamos a diferença na conta de luz.

A IEA alerta que gargalos nas redes elétricas já travam mais de 2.500 gigawatts em projetos ao redor do mundo — e que a infraestrutura de transmissão se tornou o principal desafio estrutural da transição elétrica global. O Brasil não está sozinho nesse problema. Mas está entre os países em que ele é mais urgente — justamente porque avançou mais rápido na geração do que no restante do sistema.

A Era da Eletricidade não premia quem mais gera. Premia quem consegue transformar geração em sistema.

Painéis e turbinas são o começo — não o produto final. O produto final é eletricidade chegando onde a economia precisa, na hora certa, pelo menor custo possível. O Brasil fez metade do trabalho. Construiu geração. O governo federal estima que serão necessários quase R$ 40 bilhões em investimentos até 2039 para construir 8.400 km de novas linhas de transmissão — a outra metade que falta. Não é um número pequeno. Mas tampouco é opcional: sem essa infraestrutura, o país seguirá desperdiçando o que produz enquanto o mundo compete por exatamente o que o Brasil tem em abundância.

Para o Amapá, essa equação tem uma dimensão própria — e mais urgente do que parece.

O Atlas Solar do estado, resultado de dois anos de pesquisa do SENAI com o Ministério de Ciência e Tecnologia, mapeou um potencial energético solar que supera em quatro vezes a capacidade de Itaipu. O estado tem sol, tem vento, tem posição geográfica privilegiada na Margem Equatorial. E tem uma memória recente que nenhum dado abstrato substitui: em novembro de 2020, uma única falha numa subestação em Macapá deixou 13 municípios sem energia por 22 dias.

O Amapá conhece na prática o que a IEA descreve em teoria: fragilidade de sistema não é apenas inconveniente — é vulnerabilidade econômica e social.

O que torna o momento atual diferente é que, pela primeira vez, o estado reúne três condições simultaneamente: potencial mapeado, debate energético nacional em curso e uma crise geopolítica global que acelera decisões de investimento em renováveis. Essas três janelas raramente se abrem ao mesmo tempo. E raramente ficam abertas por muito tempo.

O Amapá não precisa resolver o problema nacional de transmissão. Precisa usar esse momento para construir sua própria arquitetura energética — antes que a janela se feche e o potencial continue sendo apenas um número no Atlas.

A crise de Ormuz vai passar. A Era da Eletricidade não passa — ela aprofunda. E nessa era, sol e vento não são apenas recursos naturais. São ativos estratégicos. O Amapá tem os dois em abundância. Falta transformá-los em sistema antes que outros o façam por nós.


Elissandro Araújo é professor, palestrante e especialista em energia, governança pública e corporativa e desenvolvimento regional.


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Elissandro Araújo

Professor, palestrante e especialista em energia, governança pública e corporativa e desenvolvimento regional.



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