A transição energética que prometeram não cabe nas economias emergentes
O ritmo da transição não é definido por metas climáticas, mas pela capacidade de garantir energia confiável.
A transição energética tornou-se, nos últimos anos, uma espécie de consenso global. Metas são anunciadas com prazos cada vez mais ambiciosos, compromissos internacionais se multiplicam e o discurso dominante sugere que a substituição de combustíveis fósseis por fontes limpas é uma trajetória inevitável, quase automática, dependente apenas de decisão política e avanço tecnológico.
O problema é que essa narrativa descreve a intenção, mas não explica o funcionamento real do sistema energético. Porque, antes de ser limpa ou suja, a energia precisa ser confiável.
A recente crise no Estreito de Ormuz oferece um exemplo concreto desse limite. Por essa estreita passagem marítima circula aproximadamente 20% de todo o petróleo consumido no mundo, além de uma parcela relevante do comércio global de gás natural liquefeito. Trata-se de um dos pontos mais sensíveis da infraestrutura energética global — e, ao mesmo tempo, um dos mais expostos à instabilidade geopolítica.
O que os episódios recentes demonstraram não foi apenas a importância do fluxo, mas a fragilidade do sistema diante do risco. Com o conflito, o tráfego foi praticamente interrompido por um período, e isso foi suficiente para pressionar preços, reconfigurar rotas logísticas e elevar o custo do transporte marítimo. Em energia, não é necessário um colapso total: a ruptura de previsibilidade já desorganiza o sistema.
Esse tipo de reação revela algo que raramente aparece nos discursos oficiais ou nas negociações conduzidas pelas ONU: em momentos de risco, metas climáticas deixam de ser prioridade operacional. A lógica passa a ser outra — garantir que o sistema continue funcionando.
Esse ponto é central para entender o que de fato está acontecendo com a transição energética.
Dados recentes mostram que, em 2025, todas as fontes de energia cresceram simultaneamente — petróleo, gás, carvão e renováveis. A demanda global avançou cerca de 1,3%, e esse crescimento foi atendido por uma combinação de fontes, não por substituição entre elas . A expansão das renováveis foi relevante, mas não deslocou as fontes tradicionais na velocidade que o discurso sugere.
Na prática, o sistema energético global não está sendo substituído. Está sendo expandido. Mesmo com recordes de investimento em tecnologias limpas, os combustíveis fósseis continuam sustentando mais da metade da geração elétrica mundial. Ao mesmo tempo, as emissões globais de CO? atingiram um novo recorde, ultrapassando 38 bilhões de toneladas em 2025. O que isso revela não é incoerência, mas limite: o crescimento da demanda está absorvendo boa parte dos ganhos de eficiência e da expansão das fontes renováveis.
À medida que a participação das renováveis cresce, aumenta também a necessidade de fontes capazes de garantir estabilidade ao sistema. Em sistemas elétricos complexos, a intermitência não é um detalhe técnico — é um risco operacional. Por isso, gás natural e outras fontes despacháveis continuam exercendo papel central, não como alternativa, mas como sustentação.
É justamente nesse ponto que a narrativa global começa a se descolar da realidade das economias emergentes. A transição energética global tem sido desenhada, em grande medida, por organismos multilaterais, acordos climáticos e centros financeiros que operam a partir da realidade de países como Estados Unidos, membros da União Europeia e Japão — economias que já resolveram seus problemas estruturais de infraestrutura energética e possuem capacidade fiscal para absorver o custo da mudança.
Esse modelo, no entanto, é frequentemente projetado como se fosse universal. Em países como Índia, Indonésia ou Brasil, a equação é outra. A prioridade não é substituir rapidamente fontes energéticas, mas garantir que o sistema suporte crescimento econômico, expansão do consumo e estabilidade de preços. Isso exige escala, previsibilidade e resiliência — atributos que, em muitos contextos, ainda estão associados às fontes fósseis.
É nesse contexto que a transição deixa de ser uma agenda linear e passa a ser um processo condicionado.
O Amapá é um exemplo direto desse descompasso. Trata-se de um estado que, do ponto de vista ambiental e energético, já se aproxima do ideal projetado pelo discurso global: forte participação de hidrelétricas, elevada preservação territorial e contribuição para uma matriz elétrica de baixa emissão no Brasil.
Ainda assim, essa posição não se traduz em desenvolvimento econômico proporcional. O estado convive com fragilidade na infraestrutura energética, limitações logísticas, baixa industrialização e um custo elevado de energia que, na prática, elimina qualquer vantagem competitiva.
O Amapá já entrega parte do que a transição promete — mas não colhe os benefícios associados a ela. Essa contradição expõe uma questão que raramente aparece nas agendas globais: produzir energia limpa não garante acesso a energia confiável, nem assegura desenvolvimento econômico.
O estado participa do sistema como fornecedor, mas não como protagonista. Sustenta parte da base energética, mas não captura valor. Preserva ativos ambientais, mas não os converte em capacidade produtiva. Nesse contexto, a transição energética não aparece como vetor de transformação. Aparece como uma agenda que atravessa o território sem reorganizar suas estruturas.
Esse padrão não é uma exceção brasileira. Ele revela um problema mais amplo: a transição energética global está sendo conduzida com base em premissas que não se sustentam fora do contexto das economias que a formularam.
Em grande parte do mundo, antes de discutir descarbonização, ainda é necessário garantir acesso, confiabilidade, custo e capacidade de expansão do sistema energético. Sem isso, qualquer tentativa de aceleração da transição tende a gerar efeitos colaterais diretos — aumento de preços, instabilidade de fornecimento e limitação ao crescimento econômico.
O que essa assimetria revela é que a transição energética não é um processo homogêneo nem linear. Ela avança onde há estrutura e desacelera onde essa estrutura ainda está em construção. Na prática, isso significa que novas fontes entram no sistema sem que as antigas saiam na mesma velocidade.
Diante disso, a questão central deixa de ser se a transição energética vai acontecer, e passa a ser em que ritmo e sob quais condições ela será viável. Para o Amapá, essa discussão é ainda mais direta. Não se trata apenas de aderir a metas globais, mas de definir qual papel será ocupado dentro desse novo arranjo energético — e, sobretudo, como transformar essa posição em desenvolvimento concreto.
Sem essa conversão, a transição corre o risco de repetir um padrão conhecido: o de regiões que fornecem recursos estratégicos, mas permanecem à margem dos ganhos gerados por eles.
No fim, a velocidade da transição energética não será determinada pelo grau de ambição das metas anunciadas, mas pelo nível de confiança que países como Estados Unidos, Alemanha ou Japão têm em seus sistemas — e pela ausência dessa mesma confiança em grande parte das economias emergentes.
E, enquanto essa diferença persistir, a transição continuará avançando — não como ruptura global, mas como um processo desigual, assimétrico e profundamente condicionado pela realidade.
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Elissandro Araújo é professor, palestrante e especialista em energia, governança pública e corporativa e desenvolvimento regional.












