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7 de agosto: o Amapá vai estar pronto?

7 de agosto: o Amapá vai estar pronto?


O poço mais importante do Brasil está a 175 quilômetros da costa do Amapá — e o que acontece depois do resultado vai depender do que foi construído em terra.

Em 7 de agosto, a Petrobras prevê concluir a perfuração do poço Morpho, a 175 quilômetros da costa do Amapá, em águas com quase três quilômetros de profundidade. A data consta no cronograma enviado ao Ibama e já circula nos noticiários nacionais. Mas antes de perguntar o que o poço vai encontrar, vale entender o que está em jogo — e o que o Amapá já está fazendo enquanto a broca desce.

O estado não ficou parado. Nos últimos meses, o Amapá começou a movimentar peças que, até pouco tempo atrás, sequer estavam sobre a mesa. O IFAP lançou o programa Acelera Amapá, com R$ 4,5 milhões voltados à qualificação profissional para o setor de óleo e gás, alcançando os sete municípios onde o instituto mantém presença. O governo estadual também coordenou missões empresariais para aproximar investidores nacionais da cadeia de petróleo e gás de empresários locais — uma tentativa clara de evitar que, caso a atividade avance, a maior parte dos contratos siga o roteiro já conhecido de grandes projetos amazônicos: capital de fora, execução de fora e captura limitada de valor no território.

A movimentação também chegou à infraestrutura. O Estado contratou estudos de viabilidade técnica e econômica para avaliar a instalação de bases portuárias de apoio às operações na Margem Equatorial, etapa necessária para qualquer salto logístico mais robusto. E a malha aérea de Macapá, que há pouco tempo dependia quase exclusivamente da escala em Belém, hoje opera voos diretos para Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro — sinal concreto de que a cidade começa a funcionar como destino de negócios, não apenas de passagem.

O Amapá saiu da arquibancada. Ainda há distância entre o que foi iniciado e o que precisa estar pronto — mas o movimento é real e é diferente do que era há dois anos.

Agora, sobre o que esperar do dia 7.

Quem acompanha a indústria sabe que o poço pioneiro raramente entrega a resposta definitiva. O Morpho vai produzir dados técnicos — pressão, fluido, volume, composição. Esses dados alimentam a decisão sobre os próximos 14 poços previstos até 2030 e sobre R$ 13 bilhões em investimentos na região. Encontrar petróleo é uma etapa. Encontrar petróleo em volumes economicamente viáveis é outra completamente diferente. A distinção parece técnica, mas suas consequências são políticas, econômicas e sociais — e a história da própria Guiana, o espelho mais citado quando se fala em Margem Equatorial, comprova isso com uma força que poucos comentam.

Ao longo de décadas, diferentes petroleiras perfuraram mais de 40 poços na costa guianense sem encontrar nada economicamente viável. A Shell, que detinha metade do bloco Stabroek, desistiu e vendeu sua participação em 2014. Foi apenas em 2015 que a ExxonMobil perfurou seu primeiro poço no bloco — o Liza-1 — e encontrou a descoberta que transformaria a Guiana numa das economias de maior crescimento do mundo. Um único poço, após décadas de tentativas frustradas de outros. Desde então, já são mais de 30 descobertas e 11 bilhões de barris confirmados, com produção que hoje supera 650 mil barris por dia e deve chegar a 1,3 milhão até 2027 — de um país que não produzia um único barril antes de 2019.

Um resultado positivo em agosto acelera os próximos poços, atrai mais investidores e dá ao Amapá um argumento concreto para exigir seu lugar na cadeia. Um resultado inconclusivo — tecnicamente possível numa perfuração desta complexidade, que já custou R$ 842 milhões e levou quase dez meses — não cancela a campanha: reorienta. Em ambos os casos, o que determina se o estado aproveita ou perde essa janela não é a geologia. É o que foi construído em terra enquanto a broca trabalhava no fundo do mar.

Por isso a pergunta mais importante não é “vai ter petróleo?”. É: quando o resultado do Morpho sair, o Amapá vai estar em posição de influenciar o que acontece a seguir?

O resultado técnico vai para as mesas de decisão no Rio de Janeiro, em Houston e em Londres. O que chega junto com ele — ou não chega — é a imagem de um estado com capacidade instalada, mão de obra em formação, infraestrutura logística em movimento e marco regulatório funcionando. Essa imagem pesa na decisão de acelerar ou desacelerar os próximos poços. Pesa nos contratos que serão distribuídos. Pesa na escolha de quais fornecedores locais serão considerados aptos. E pesa, no longo prazo, na diferença entre um estado que apenas abrigou uma operação de extração e um estado que construiu uma economia a partir dela.

O Amapá tem avançado. As iniciativas em curso mostram que há consciência do que está em jogo. Mas a janela entre o dado técnico e a decisão de investimento é estreita, e é nela que se define quem entra na cadeia e quem assiste de fora.

O calendário já tem a data. A pergunta é o que fazemos até lá — e o que já fizemos também conta.

Elissandro Araújo é professor, palestrante e especialista em energia, governança pública e corporativa e desenvolvimento regional.


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Elissandro Araújo

Professor, palestrante e especialista em energia, governança pública e corporativa e desenvolvimento regional.

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