PARÁ: da mesa simples e saborosa para o mundo conhecer
O Pará foi escolhido como um dos melhores destinos gastronômicos do mundo. Confesso: não me surpreende. O que me surpreende é que esse reconhecimento tenha demorado tanto.
Quem nasce ou vive em Belém sabe que a nossa comida não é apenas saborosa — ela é forte, marcante e cheia de identidade. A culinária paraense nasce do rio, da floresta e do conhecimento dos nossos povos originários. O tucupi, o jambu, a maniçoba, o açaí e o filhote não são modismos. São parte da nossa história.
Na década de 1980, começou um movimento importante de valorização dessa riqueza. Restaurantes tradicionais como o Lá em Casa, fundado por Dona Ana Maria Martins, o Avenida e outros nomes que marcaram época ajudaram a mostrar que a comida regional podia ser apresentada com organização, cuidado e respeito às suas origens.
Foi nesse contexto que surgiu a figura decisiva de Paulo Martins. Visionário, ele entendeu algo simples e poderoso: o Pará não precisava copiar ninguém. Precisava mostrar o que já tinha.
Paulo levou a culinária paraense para São Paulo, participou de eventos nacionais e internacionais e apresentou ingredientes regionais ao restante do país. Ele abriu portas. Mostrou que nossa cozinha não era exótica — era sofisticada por natureza, porque nasce de uma biodiversidade que o mundo inteiro admira.
Hoje, seu legado segue vivo com Daniela Martins, que mantém a tradição e continua defendendo a gastronomia paraense com firmeza. Ao lado dela, uma nova geração de chefs paraenses vem ocupando espaço no cenário nacional, combinando técnica moderna com respeito às raízes.
A gastronomia do Pará também é parte da nossa identidade cultural. No almoço do Círio de Nazaré, por exemplo, não se reúne apenas a família — reúne-se a memória. A maniçoba e o pato no tucupi são quase sagrados. São tradição que atravessa gerações.
E tudo isso acontece em uma cidade que abriga símbolos históricos como o Theatro da Paz, marco da nossa riqueza cultural. Belém sempre foi palco de grandes expressões artísticas. A gastronomia é mais uma delas.
O mundo agora olha para a Amazônia também através do paladar. E quando prova, entende que o Pará não é apenas parte da culinária brasileira — é referência. Referência pela autenticidade dos seus ingredientes, pela força da sua tradição e pela capacidade de transformar biodiversidade em alta gastronomia. O Pará hoje ocupa um lugar de destaque não por tendência, mas por consistência histórica. Nossa cozinha deixou de ser regional para se tornar mundial. E isso não é acaso. É identidade consolidada.
Antonio Maria Alves de Brito
Articulista
Aluno de Jornalismo da Unifap





