O almoço da Semana Santa
Há algo de profundamente simbólico no almoço da Semana Santa. Não é apenas uma refeição. É quase um reencontro com a memória, com a fé e com aqueles que fazem parte da nossa história.
Enquanto a mesa vai sendo posta e o cheiro do peixe toma conta da cozinha, percebo que aquele momento traz muito mais do que comida. Traz lembranças.
Lembro-me dos almoços na casa de minha mãe. Eram tempos em que a família se reunia em torno da mesa com uma simplicidade cheia de significado. O prato principal quase sempre era o bacalhau, preparado com cuidado e respeito à tradição católica que marca esse período do calendário cristão. Naqueles momentos, mais do que alimentar o corpo, parecia que alimentávamos também o espírito.
Hoje, no almoço de Semana Santa aqui em casa, muitas dessas lembranças voltaram à mesa. O caldo de filhote, o peixe frito acompanhado de açaí, o pirão bem feito e até a disputa silenciosa pela cabeça do peixe — tudo isso parecia trazer de volta os gestos e os sabores de outros tempos.
Cada prato carregava um pedaço de memória.
Mas percebo que há algo ainda maior por trás dessa tradição. A mesa da Semana Santa não é apenas um espaço de refeição. Ela é, de certa forma, uma pequena tradução daquilo que representa a própria fé cristã: a reunião, o encontro, o partilhar.
Sentados à mesa, reunimos a família, partilhamos o alimento e, de alguma maneira, revivemos o sentido mais profundo da união. A mesa farta torna-se símbolo de comunhão, lembrando a própria imagem da Santa Ceia e o espírito de fraternidade que a tradição cristã carrega.
Talvez seja por isso que o almoço da Semana Santa tenha um sabor diferente. Não é apenas o peixe, o caldo ou o pirão. É a memória que volta, é a família que se reúne e é a fé que, silenciosamente, se senta à mesa conosco.












