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Diálogo no Maracá: Da Argila Ancestral aos Labirintos do Cérebro

Diálogo no Maracá: Da Argila Ancestral aos Labirintos do Cérebro


Aqui estamos, no coração do Amapá, nas margens serenas do Rio Maracá, em Mazagão-AP. O sol poente doura as águas do igarapé, enquanto o cheiro de café passado na hora flutua no ar da comunidade ribeirinha. Sentados em bancos de madeira sob as árvores, cercados por réplicas de cerâmicas arqueológicas e sob a sombra da floresta que guarda mistérios antigos, os sete amigos — Arturo, Seni, Airam, Anicaroh, Ycrad, Nnaor e Leirbag — compartilham uma prosa que conecta a profundidade da terra com a complexidade da mente humana.

Arturo: (Olhando o pôr do sol refletido no rio) Sabe, meus amigos, estar aqui no Maracá me dá uma sensação estranha de tempo. Olho para essas réplicas de urnas funerárias, rostos de argila misturados com formas de animais, e penso em como a mente daqueles antepassados indígenas tentava traduzir a vida, a morte e a própria inteligência.

Seni: É verdade, Arturo. A arte deles era uma oração de barro. E pensar que, enquanto esses povos moldavam a eternidade aqui na Amazônia, em outras partes do mundo a humanidade batia cabeça para entender de onde vinha o pensamento. Lembrei-me agora do livro do Roberto Lent, Cem Bilhões de Neurônios. Ele conta que os egípcios antigos achavam que a sede da inteligência ficava no coração! Só porque ele é vermelho, portátil e quente. No processo de mumificação, eles simplesmente puxavam o cérebro com um gancho, jogavam fora e guardavam o coração.

Airam: (Risos) Que ironia, não? Hoje o cérebro é o protagonista absoluto. Mas a provocação do Lent continua atual: o que é a inteligência? Hoje a ciência concorda que ela é múltipla. Existe a inteligência do artista que moldou a cerâmica de Maracá, a do atleta, a do escritor e a do ribeirinho que decifra a correnteza desse rio. Tentar medir isso com um teste de QI, como se tentou há um século, é ignorar a cultura e o ambiente. O QI privilegia quem domina certos conceitos escolares, mas não resume o potencial humano.

Anicaroh: Com certeza, Airam. Se aplicassem um teste de QI urbano a um extrativista daqui da Vila, que sabe exatamente quando a castanha-do-Brasil vai cair madura e como manejar a floresta sem destruí-la, talvez o teste falhasse em medir sua capacidade. Mas a neurociência, como base biológica, tenta ir além dos testes. O livro mostra que o cérebro tem mais de 86 bilhões de neurônios fazendo mais de 100 trilhões de conexões! É uma teia invisível, muito mais complexa que os cipós que cobrem aquelas ruínas misteriosas do Igarapé Fortaleza.

Ycrad: (Tomando um gole de café) Esses números são de dar nó na cabeça. Um único neurônio recebendo até 100 estímulos por segundo... Tudo o que a gente sente aqui — o calor da tarde, o gosto do café, o comando para os nossos corações baterem enquanto conversamos — vem desse comando central. E o mais bonito é que a neurociência dá significado à existência. O Lent cita exemplos práticos, como o desenvolvimento infantil e a aprendizagem. Sabiam que há pesquisas mostrando que se você der uma aula de música, de instrumento, logo antes da aula de matemática, o rendimento da criança em matemática explode?

Nnaor: Espera aí, Ycrad... Música antes da matemática? Qual é a lógica disso?

Ycrad: O Lent chama isso de plasticidade transmodal. A música gera um fascínio incrível, prende a atenção da criança. O cérebro aprende a focar ali. Quando a aula muda para a matemática, que é abstrata e muitas vezes carece de motivação inicial, a criança simplesmente transfere aquele foco intencional que já estava ativado. Se inverter a ordem, não funciona.

Leirbag: Rapaz, isso é pura gestão educacional! Mas como o próprio livro debate, não dá para só mudar a grade curricular de todas as escolas do Brasil num estalo de dedos. São os gestores, diretores e professores que precisam testar e equacionar isso na prática. A neurociência dá a sugestão baseada na biologia, mas a educação faz o manejo, igualzinho ao extrativismo sustentável que o pessoal faz aqui na Vila. É preciso adaptar a técnica à realidade.

Nnaor: Perfeito, Leirbag. E tudo isso deságua em um conceito fascinante que o Lent aborda: a neuroplasticidade. O cérebro não é uma estrutura rígida, de cimento; ele é plástico, como o barro ancestral que os indígenas usavam. Ele se reorganiza. Há casos inacreditáveis de pessoas que perderam parte do córtex em acidentes automobilísticos, perderam movimentos motores e, com o estímulo correto, outras regiões do cérebro assumiram aquela função. O circuito se rearranja!

Arturo: E isso traz uma esperança enorme para o envelhecimento, não acham? Muitas doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson, atacam justamente essa capacidade de plasticidade. Mas o livro nos dá uma boa notícia: o declínio cognitivo pode ser retardado ou administrado. E a memória... bem, o Lent lembra que ela não está só no cérebro. Temos memória genética e até memória muscular.

Seni: Engraçado você falar de biologia usando metáforas da natureza, Nnaor. No livro, os neurônios são comparados a árvores. Em vez de folhas, eles têm sinapses ao longo dos seus ramos dendríticos. À medida que aprendemos e somos desafiados, novos ramos brotam. Olhem para essa floresta ao nosso redor... a nossa mente funciona igual. Fazer mais conexões não significa ganhar mais neurônios, mas sim criar teias e circuitos mais velozes e de maior qualidade.

Airam: Mas tem um detalhe crucial que o livro alerta: o que promove essa plasticidade é o estímulo e o desafio certo. Se passarmos a vida inteira repetindo a mesma tarefa, do mesmo jeito, viramos apenas repetidores. O cérebro se acomoda. Para as conexões se expandirem, precisamos do novo, do mistério, do questionamento.

Anicaroh: (Sorrindo) Então estamos no lugar certo. Maracá é puro desafio ao pensamento. As ruínas escondidas que ninguém explica, a cerâmica que transformou o luto em arte viva, a resistência dessa comunidade ribeirinha... Tudo aqui nos força a pensar fora da caixa, a conectar passado e futuro.

Leirbag: Com certeza. O Roberto Lent escreveu sobre os cem bilhões de neurônios no papel, mas estar aqui, conversando sob este céu do Amapá, nos mostra a neuroplasticidade na prática. Nós mudamos a nossa fiação mental quando nos permitimos ouvir a história de um povo e a ciência de um livro ao mesmo tempo.

Ycrad: (Olhando o rio) É como diz o texto sobre este lugar: "Maracá não se visita. Maracá te habita." Acho que o nosso cérebro acabou de criar dezenas de novos ramos dendríticos só por estarmos aqui, testando nossas próprias ideias.

O silêncio terno da noite começou a tocar as margens do Rio Maracá, mas a mente de cada um ali fervilhava. O que aquela tarde de café, ciência e ancestralidade provava era algo simples e poderoso: nós não somos fatias rígidas de uma realidade imutável. Somos terra fértil, somos plasticidade viva. Se a neurociência prova que o cérebro se expande diante do novo, a história do Amapá prova que nossa gente cresce diante dos desafios. Cuidar de uma comunidade — seja na educação das nossas crianças, na saúde dos nossos idosos ou no manejo sustentável das nossas riquezas — é como cultivar os ramos dendríticos daquela floresta. É criar conexões. O futuro que queremos não se espera; ele se molda, com a sensibilidade do barro e a força de quem sabe de onde veio. No fim, governar e viver são atos de plasticidade: a capacidade de olhar para o que somos e entender que sempre podemos ir mais longe. Juntos.

Foto: Reprodução - turismoamapa.com.br


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Articulista/Colunista

João Batista Neto

Professor, palestrante, Advogado, Administrador e Psicólogo.

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