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Eco das Ondas e do Silêncio: O Despertar da Presença no Coração de Macapá

Eco das Ondas e do Silêncio: O Despertar da Presença no Coração de Macapá


O entardecer derrama tons de dourado e violeta sobre o Teatro Municipal de Macapá - Fernando Canto, onde sete amigos estão reunidos. Dali, eles observam o contorno do Parque Residência, a antiga Residência Oficial do governador, agora transformada em um vivo polo de história e cultura na Rua Cândido Mendes.

Sentados nas linhas modernas do teatro, cuja arquitetura foi inspirada nas curvas místicas das ondas do Rio Amazonas e na tradição das canoas amazônicas, o grupo sente o peso do dia ceder espaço a uma quietude profunda. Inspirados pelas lições de Eckhart Tolle em O Poder do Silêncio, eles expandem a antiga sabedoria estoica, costurando o discernimento da mente com a força da pura presença.

Arturo: (Olhando a brisa mover as folhas ao redor, apontando suavemente para a linha do horizonte) Existe uma lei silenciosa que rege o mundo, meus amigos. Quanto mais você corre atrás das coisas, mais elas fogem. Quanto mais você força uma situação, mais ela resiste. No dia em que você finalmente para — não por desistência, mas por escolha —, o mundo inteiro parece se alinhar. Eckhart Tolle nos ensina que a paz não é uma linha de chegada pela qual devemos lutar. A paz é a nossa condição natural. É a consciência viva que testemunha tudo por trás do barulho dos pensamentos.

Seni: (Ajustando a postura na arquibancada, reflexiva) Os estoicos chamavam isso de “viver em acordo com a natureza”, mas fomos culturalmente programados para acreditar no oposto: que urgência é compromisso e ansiedade é sinal de que nos importamos. Passamos décadas operando nesse modo tenso, achando que precisamos de mais conhecimento ou de mais posses. Mas a proposta de Tolle é radical: a paz verdadeira não vem de buscar mais coisas externas, mas de acessar o silêncio que já mora dentro de nós. Se a calma é a nossa essência, por que ela parece tão rara? A resposta nos leva a um único lugar: para dentro.

Ycrad: (Balançando a cabeça positivamente) Exatamente, Seni. Porque a fonte da nossa inquietação não está do lado de fora. O verdadeiro barulho, a verdadeira prisão, está na nossa própria mente. Do trânsito da Avenida FAB ou das notificações do celular, a gente consegue se afastar; mas o fluxo sem fim de preocupações, julgamentos e historinhas mentais vai com a gente para todo lugar. Quem vive preso nesse ruído sente ansiedade por um futuro que nem chegou ou ressentimento por um passado que já foi. É uma incapacidade crônica de simplesmente ser, aqui e agora.

Anicaroh: (Com um sorriso acolhedor) E a saída dessa prisão exige aprender a diferenciar a voz que não para de falar na nossa cabeça daquela consciência silenciosa que apenas observa. Essa voz incessante é o ego — uma identidade falsa criada pela mente que se alimenta de problemas, ama um drama e vive no passado ou no futuro buscando algo para se sentir completo. É uma sede insaciável. O contraste é total: o ego precisa de conflito para existir; a consciência pura é paz e só existe no agora. No instante em que você percebe o seu próprio pensamento, uma separação acontece. Você deixa de ser o ruído e passa a ser o espaço silencioso por trás dele.

Airam: (Olhando para a estrutura arrojada do palco) E nesse espacinho que se abre, a calma se instala. Lembram da metáfora do mergulhador? Na tempestade, ele não luta com as ondas na superfície; ele submerge porque alguns metros abaixo existe um silêncio que a agitação não alcança. A nossa mente funciona igual. Tolle nos lembra de uma verdade avassaladora: a única coisa que realmente existe é este exato momento. O passado é só uma memória e o futuro é só uma projeção; ambos são apenas pensamentos acontecendo agora. Quando paramos de ver o momento presente como um obstáculo e o abraçamos como um aliado, acessamos uma estabilidade inabalável.

Nnaor: (Com a voz serena e firme) E para virar amigo do agora, especialmente nos momentos difíceis, Tolle nos entrega a chave da aceitação, ou da entrega. Ela se faz em três passos simples: primeiro, notar a nossa resistência interna; segundo, largar os rótulos de “bom” ou “ruim” que a mente carimba na situação; e terceiro, oferecer um “sim” interno à realidade como ela se apresenta. E se parecer impossível aceitar o fato, o mestre propõe um paradoxo genial: aceite a sua não aceitação. Observe sua resistência sem se julgar. A própria consciência da resistência já abre espaço para a entrega. Isso não é passividade ou jogar a toalha; quando a guerra interna acaba, uma energia enorme é liberada e uma sabedoria maior passa a guiar nossas ações.

Leirbag: (Concluindo com entusiasmo contido) É essa entrega que opera a transformação de dentro para fora. Aquela felicidade superficial que depende dos eventos externos dá lugar à alegria profunda de simplesmente ser. Os relacionamentos ficam leves, livres da carência do ego. Passamos a praticar o que Marco Aurélio chamava de “amar sem necessitar” e o que Tolle descreve como o fim do apego: usufruir do festival da vida sem depender emocionalmente do resultado. Quando silenciamos o caos interno, o universo traz o que é nosso de forma fluida. Uma mente calma toma decisões melhores, transmite confiança e age com precisão cirúrgica.

Arturo: (Olhando nos olhos de cada um ao redor) No fim das contas, a agitação e o sofrimento funcionam como um despertador bem barulhento: eles existem para nos forçar a acordar, até percebermos que a causa da dor não está no mundo, mas na nossa própria mente. A calma não é o destino para onde vamos quando tudo se acalma; ela é o veículo a partir do qual navegamos quando o mundo faz barulho.

(Arturo faz uma pausa longa, deixando o silêncio da noite amapaense preencher o espaço entre eles, e lança a pergunta final)

E para cada um de nós que busca essa travessia agora... Quem está olhando através destes olhos neste exato momento? Quem é a consciência silenciosa que percebe tudo isso?

Enquanto a pergunta de Arturo ecoa no ar, o silêncio que se instala nas arquibancadas não é um vazio, mas uma plenitude transbordante. Os sete amigos compreendem, enfim, o belo paralelismo daquele lugar. O Teatro Municipal Fernando Canto nasceu para dar voz à arte, à literatura e à ancestralidade do Marabaixo; contudo, para que a obra do artista ganhe vida, o espectador precisa primeiro silenciar na plateia.

O próprio homenageado, o obidense Fernando Canto, dedicou sua vida a decifrar a alma amapaense através do estudo e da sensibilidade, algo impossível de realizar em meio ao frenesi do ego. Assim como o projeto do teatro imita as canoas que cortam placidamente as águas calmas do Rio Amazonas, a mente humana deve aprender a deslizar sobre o fluxo da vida sem tentar reter a correnteza.

O maior legado deixado ao povo de Macapá não reside apenas no concreto moderno da Avenida FAB, mas no convite que o espaço faz: o de nos tornarmos poetas da nossa própria existência. Ao saírem dali, os amigos levam consigo a maior das lições: a resposta para a inquietação humana não está em teorias ou palavras complexas, mas na exata e sagrada quietude que se revela quando o espetáculo dos pensamentos silencia, permitindo-nos, finalmente, apenas ser.


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Articulista/Colunista

João Batista Neto

Professor, palestrante, Advogado, Administrador e Psicólogo.

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