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O Encontro dos Espelhos: Uma Conversa sobre a Criança Interior

O Encontro dos Espelhos: Uma Conversa sobre a Criança Interior


Na Universidade Federal do Amapá existe um lugar que abraça. Um espaço feito para quem passa o dia inteiro aqui. Para quem vive, estuda e sonha entre os corredores da Unifap. É o espaço de convivência. Ali, entre o balanço suave das redes que convidam ao descanso, o parquinho que lembra a leveza da infância e as mesas de estudo sob a sombra generosa do verde, o lazer encontra o estudo. A conversa encontra o silêncio. O cansaço encontra o acolhimento. Um ambiente pensado no cuidado; um pedacinho da Unifap para levar pela vida inteira.

Os sete amigos estão reunidos exatamente ali, em torno de uma das mesas de madeira, com chá, café e alguns petiscos. O vento leve do fim de tarde balança as árvores, criando uma atmosfera de profunda intimidade e desabafo.

Arturo: (Suspirando, olhando para o celular) Eu não sei o que acontece comigo, de verdade. Hoje o meu chefe fez uma crítica boba sobre o relatório — algo construtivo, sabem? — e eu senti um nó no estômago tão violento... Fiquei na defensiva, me justificando obsessivamente. Parece que fui atacado por um leão.

Seni: (Colocando a xícara na mesa com carinho) Eu te entendo tanto, Arturo. Sabe o que eu sinto? Pânico. Toda vez que o meu parceiro demora para responder uma mensagem, parece que o mundo vai desabar. Uma sensação de abandono avassaladora, um desespero de que vou ficar sozinha para sempre.

Ycrad: (Balançando a cabeça) E eu, que me saboto justamente quando tudo está indo bem? Consegui aquela promoção que tanto queria e, na mesma semana, comecei a procrastinar, a duvidar de mim, quase estraguei tudo. É irracional.

Anicaroh: (Intervindo com uma voz suave, mas firme) Meninos... e se eu disser que nessas horas não são vocês, os adultos racionais de hoje, que estão respondendo?

Airam: (Curiosa, inclinando-se para a frente) Como assim, Anicaroh? Quem está respondendo então?

Anicaroh: É a criança interior ferida de cada um de vocês tomando o controle da vida adulta. Carl Jung já explicava isso. Nós não somos uma só pessoa; somos uma coleção de partes. E a parte mais poderosa — e mais destrutiva quando está machucada — é a nossa versão de 5, 7 ou 10 anos que ficou presa no tempo.

Nnaor: (Pensativo, olhando para as próprias mãos) Faz muito sentido... Então, quando o Arturo reage desproporcionalmente, é uma criança gritando por validação?

Anicaroh: Exatamente, Nnaor. A maioria das pessoas vive a vida inteira sem perceber que suas decisões mais importantes, seus relacionamentos e medos mais profundos vêm de uma criança de 6 anos que ainda está esperando que o pai volte, que a mãe a valorize, ou que alguém finalmente lhe diga: "Você é suficiente".

Leirbag: (Um pouco cético, mas tocado) Mas isso não é só uma metáfora, Anicaroh? O passado já passou, nós crescemos.

Anicaroh: Não é metáfora, Leirbag, é literal na nossa psique. Carregamos dentro de nós todas as idades que já fomos. Quando éramos pequenos e algo nos machucava, nós chorávamos, fazíamos birra, nos escondíamos ou nos agarrávamos a alguém para sobreviver. Hoje, na vida adulta, chamamos essas mesmas estratégias de ansiedade, codependência, autossabotagem e people pleasing — aquela necessidade obsessiva de agradar a todos.

Ycrad: (Impactada) Meu Deus... Minha última discussão com o meu namorado não era sobre a louça suja. Era a minha versão de 8 anos gritando porque se sentiu invisível e rejeitada.

Seni: E como nós saímos desse ciclo? Passamos a vida atraindo pessoas que nos tratam exatamente como fomos tratados na infância?

Anicaroh: Jung chamava o caminho de cura de Individuação — o processo de se tornar uma pessoa completa, integrada e consciente. E a chave não é esquecer o passado, nem mesmo esperar que os outros te curem. Ninguém vai preencher esse vazio por fora. A boa notícia é que você pode se reparentalizar. Você precisa se tornar o pai ou a mãe que sua criança interior sempre precisou.

Arturo: (Preocupado) Mas como eu faço isso na prática? Como eu impeço o "Arturo de 7 anos" de assumir o volante quando eu sou criticado?

Airam: (Sorrindo, oferecendo uma linha de pensamento) Acho que o primeiro passo é o que estamos fazendo agora: reconhecer. Da próxima vez que você sentir essa reação desproporcional, artigo, pare e se pergunte mentalmente: "Quantos anos eu tenho neste momento? A que situação da minha infância isso me lembra? O que eu precisava naquela época que não recebi?"

Nnaor: E aí você fala com essa parte? Tipo... uma conversa literal?

Anicaroh: Sim, Nnaor! Sem medo de parecer ridículo. Diga a ela as palavras que ela passou a vida esperando ouvir: "Você está seguro. Você é amado. Não precisa ser perfeito para merecer amor. Não é sua culpa". Quando a mente adulta para de resistir e acolhe essa criança, algo muda para sempre.

Leirbag: (Refletindo) Entendi... Um bom pai ou mãe interna não é permissivo, certo? Não é justificar nossos erros dizendo "ah, eu sou assim porque tive um passado difícil".

Anicaroh: Perfeito, Leirbag! É exatamente o contrário. Significa colocar limites amorosos. Um bom pai não diz "faça o que quiser". Um bom pai diz: "Eu te amo incondicionalmente e, justamente porque te amo, vou te ajudar a ser a sua melhor versão". É equilibrar a brincadeira e a criatividade da criança com a responsabilidade e os limites do adulto sábio.

Seni: (Com os olhos marejados) Isso muda tudo nos relacionamentos... Se eu me dou a segurança que me faltou, eu paro de buscar um "pai" nos meus parceiros ou uma "mãe" nos meus amigos. Paro de aceitar migalhas emocionais porque sei que mereço um banquete.

Ycrad: Mas as pessoas ao nosso redor vão estranhar se mudarmos assim, não vão?

Airam: Vão sim, Ycrad. Algumas pessoas vão dizer que você ficou distante ou egoísta, porque elas se beneficiavam da sua necessidade de agradar. Por isso, a nossa cura não pode ser negociável.

Arturo: (Olhando para o grupo, sentindo uma nova força) É um compromisso diário, então. Não é uma mágica de um dia só. É uma espiral onde a gente revisita as dores, mas cada vez com mais sabedoria.

Anicaroh: Exatamente, Arturo. E para todos que estão ouvindo ou lendo a nossa conversa agora: fechem os olhos por um momento. Imaginem a sua versão de 7 anos. Como ela se parecia? O que ela mais precisava? Imagine o seu eu adulto de hoje chegando naquela cena, estendendo a mão para ela e dizendo: "Você não está mais sozinho. Eu estou aqui. Vamos para casa juntos".

Leirbag: (Sorrindo, olhando ao redor) Eu topo. Eu escolho curar minha criança interior.

Seni, Arturo, Ycrad, Airam e Nnaor: (Em coro, estendendo as mãos no centro da mesa) Nós também escolhemos.

O silêncio que se seguiu ao pacto dos amigos não era de vazio, mas de preenchimento. À volta deles, as redes continuavam a balançar devagar, e o som distante dos passos no campus parecia saudar aquela sutil, mas gigante, revolução interna. Eles compreenderam, ali na mesa de convivência, que a verdadeira maturidade não nasce do silenciamento da nossa história, mas da coragem de adivinhar o que dói no espelho e acolher o reflexo.

Aquele espaço na Unifap, construído a muitas mãos por professores e estudantes, revelava-se mais do que uma estrutura de concreto, sombra e tomadas: era um catalisador de encontros — com o outro e consigo mesmo.
Anos mais tarde, quando cruzarem os portões da academia rumo ao mercado e à vida, cada um deles levará o diploma na mão, mas guardará no peito a memória daquele entardecer. Sentirão saudades das redes, do cheiro de café e das conversas desarmadas sob as árvores. Mas, acima de tudo, lembrarão daquele pedacinho de chão onde, ao aprenderem a olhar para trás com compaixão, descobriram a arquitetura exata para construir o próprio futuro.

 

Foto: Jorge Abreu/G1


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Articulista/Colunista

João Batista Neto

Professor, palestrante, Advogado, Administrador e Psicólogo.

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