Leia o Artigo

  • Home
  • Leia o Artigo
A Arquitetura do Sentir: O Encontro entre a Biologia e o Eu

A Arquitetura do Sentir: O Encontro entre a Biologia e o Eu


No Curiaú, o fim de tarde não é só o sol se pondo. É história respirando. A cerca de 9 km de Macapá, dentro da Área de Proteção Ambiental do Rio Curiaú, o céu começa a se despedir em tons de mel e ouro. As águas escuras do rio viram espelho, e cada onda carrega um pouco da luta e da fé de quem fundou esse quilombo ainda no século XVIII. Ali, onde negros fugidos da Fortaleza de São José encontraram liberdade, a natureza faz silêncio pra gente ouvir. 

O canto dos pássaros embala o vento fresco que passa entre as árvores da Amazônia amapaense. A vegetação preservada abraça o rio, e tudo fica em paz. É nesse cenário que a cultura continua viva. O tambor do Marabaixo parece ecoar de longe, lembrando a resistência, a ancestralidade e a união de um povo que não se calou. É terra de saberes antigos, de festas, de raiz. É quilombo. É casa. Sentar na beira do Balneário do Curiaú nessa hora é sentir o tempo desacelerar. 

É o céu dourado, o rio calmo, o cheiro de mato molhado e a sensação de que você não está só visitando um lugar... você está sendo acolhido por ele. O entardecer do Curiaú é isso: paz, memória e natureza se encontrando. Um presente da Amazônia que cura a alma e ensina que liberdade também tem cor de pôr do sol.

Arturo: (Olhando a luz do sol se esgotar no horizonte) Sabem de uma coisa, a metáfora com que Damásio abre a obra “O Mistério da Consciência”, me parece visceral. Ele fala do artista que aguarda na penumbra e, de repente, a porta se abre para o palco iluminado. Essa transição entre o abrigo seguro da ignorância e o mundo amplo da consciência... não é apenas poesia. É a passagem do simples existir para o saber que se existe.

Seni: (Ajeitando o xale, pensativa) Mas é fascinante como ele situa essa iluminação na própria fragilidade biológica. Lembram da cena do velhinho na balsa de Estocolmo, sob a chuva? Sem a consciência, ele sentiria a dor nas articulações, mas não saberia de sua própria aflição. E os homens no convés não reagiriam com empatia. A consciência não nos isola na razão pura; ela amplia o impacto dos sentimentos, abrindo espaço para a compaixão e para a arte de viver.

Ycrad: (Inclinando-se para a frente, com olhar analítico) O que me impressiona na engenharia de Damásio é como ele desfaz o mistério sem desidratar a poesia da mente. Ele divide o grande problema da consciência em dois pilares anatômicos e funcionais: primeiro, como o cérebro gera o "filme" — o fluxo de imagens feito de qualia, sejam visões, sons ou estados viscerais. E segundo, como ele gera o observador dentro desse próprio filme.

Anicaroh: (Apoiando os cotovelos na mesa) Exato, Ycrad. Vamos aqui compreender melhor qualia, que é o plural do termo em latim quale, que significa "de que qualidade"), pense na diferença entre saber como algo funciona por fora e sentir como algo é por dentro. Vamos aqui imaginar que um cientista especialista no olho humano estuda a cor vermelha a vida inteira. Ele sabe exatamente o comprimento de onda da luz vermelha, como ela bate na retina e quais sinais elétricos o cérebro recebe. Mas se esse cientista jamais tivesse visto a cor vermelha e, de repente, olhasse para uma maçã, ele viveria algo inteiramente novo: a sensação direta e viva do vermelho. Essa "sensação viva", essa qualidade pura de uma experiência, é o qualia. Quando Antônio Damásio diz que o fluxo de imagens na nossa mente é feito de qualia, ele quer dizer que a nossa mente não processa o mundo apenas como números ou dados frios de computador. A nossa mente processa o mundo através de texturas e sensações reais, por exemplo na visão, não é apenas a luz entrando nos olhos; é o brilho do azul do céu ou o calor de um pôr do sol. No som, não é apenas a vibração do ar no ouvido; é o tom aveludado de um violoncelo ou o estalo grave de um trovão. Já nos estados viscerais (o corpo por dentro), não é apenas a falta de comida; é a pontada incômoda da fome. Não é só um batimento acelerado; é o aperto no peito do medo ou a leveza da alegria. Para ficar ainda mais fácil de visualizar, vamos fazer o seguinte: Pense na sua mente consciente como um filme passando em uma tela. As cenas do filme são as memórias, as paisagens e as emoções. Os qualia são os pixels coloridos que formam essa imagem. Sem cada pixel com sua cor e brilho individual, não haveria filme nenhum na tela. Ou seja, qualia é a experiência crua, o "sabor" individual de cada sensação — é a diferença entre saber que o café está quente e sentir o calor do café na ponta da língua.

E é aí que cai o mito do "homúnculo" cartesiano! Não há um pequeno observador sentado no auditório do cérebro assistindo à tela. Damásio mostra que o sentido do self surge da própria relação dinâmica entre o organismo e o objeto. O objeto modifica o corpo, e a mente mapeia essa modificação.

Airam: (Observando a xícara entre as mãos) Essa distinção fica cristalina no caso do paciente da sala cinzenta circular que ele relata. Durante a crise de ausência, o homem continuava desperto, capaz de se mover, pegar a xícara de café e caminhar. Ele tinha estado de vigília e atenção básica, mas o seu sentido de self havia evaporado. Ele estava presente, mas pessoalmente ausente — "ausente sem ter partido". Bem, mais aqui, acho interessante comentar com vocês que o self é entendível da seguinte forma: imagine que a sua mente é como um cinema, o Filme (A Mente), onde todos os dias, seus sentidos captam coisas do mundo exterior (músicas, paisagens, conversas) e do seu próprio corpo (fome, dor de dente, cansaço). Tudo isso cria um "filme" contínuo na sua cabeça. Já o espectador (O Self), que é a sensação automática de que existe alguém sentado na plateia assistindo a esse filme e que esse alguém é você. Sem o Self, as imagens, os sons e os pensamentos estariam acontecendo no cérebro, mas ninguém saberia a quem eles pertencem. O Self é o dono da experiência.

Nnaor: (Ajustando a postura) Muito bem explicado Airam, agora sim, eu compreendi muito melhor sobre “self”. Esse caso clínico joga por terra a ideia de que a consciência é um bloco único e monolítico. Damásio desenha uma hierarquia precisa: de um lado, a Consciência Central, que é simples, focada no "aqui e agora", e gera o self central a cada interação; de outro, a Consciência Ampliada, que exige memória operacional e autobiográfica para situar a pessoa no tempo histórico, criando o self autobiográfico. Se a consciência ampliada falha, ainda resta o presente; mas se a consciência central rui, todo o edifício da mente consciente desaba.

Leirbag: (Sorrindo levemente) A cada interação, o assunto vai ficando bem melhor, pois muitas pessoas estudam psicologia e poucos conseguem explicar com simplicidade o seu entendimento sobre self, mas quero acrescentar o seguinte: O self possui três níveis que Damásio explica muito bem, pois a nossa sensação de "eu" não nasce pronta. Ela é construída em três camadas, da mais simples e primitiva até a mais complexa, por exemplo: O Proto-Self (O Pilar Inconsciente), é o nosso cérebro trabalhando "nos bastidores" para manter o nosso corpo vivo. Ele monitora a temperatura do corpo, os batimentos do coração, os níveis de glicose e os movimentos dos órgãos. Aí vem a pergunta: Ele tem consciência? Não. É um processo totalmente inconsciente. É como o motor de um carro funcionando perfeitamente sem que o motorista precise pensar em como cada engrenagem gira. Já o Self Central (O "Aqui e Agora"), é justamente a sensação imediata de "estou consciente neste exato segundo". Ocorre toda vez que o seu corpo interage com algo (por exemplo, quando você segura uma xícara de café quente ou ouve um barulho alto). Aqui o cérebro nota que o seu corpo foi modificado pelo objeto e cria um "sentimento de conhecer". É o Self do presente. Ele não pensa no passado nem no futuro — apenas vive o instante. Os animais também possuem esse nível. Aí passamos para o Self Autobiográfico (A Sua História de Vida), que é o seu "eu" completo. É a soma de todas as suas memórias, suas experiências passadas, seus gostos, seu nome, suas relações e seus planos para o futuro. É aqui que ele pega o Self Central (o presente) e o conecta com a sua memória. É o que permite que você diga: "Eu sou fulano, nasci em tal lugar, gosto de tal coisa e amanhã vou trabalhar". É esse nível que nos dá a nossa identidade única e permite a criação da cultura, da arte e da moral.

E o ponto de virada da teoria dele nasce de um impasse quase poético com as emoções, não acham? Ele entendia como as emoções eram mapeadas no corpo e no cérebro, mas faltava a ponte: como o organismo toma conhecimento de que está sentindo? Para responder a isso, ele teve de descer às raízes biológicas mais profundas — o Proto-self, que agora, vocês tem um entendimento melhor a respeito.

Arturo: (Concordando com a cabeça) Perfeito, Leirbag. O Proto-self não é consciente; é o conjunto inconsciente de circuitos no tronco cerebral e no hipotálamo que gerencia a homeostase. Enquanto nossos olhos passeiam pelo mundo mapeando paisagens dinâmicas, os mapas do corpo permanecem atrelados à "mesmice dinâmica" do organismo. É essa estabilidade do corpo que serve de âncora para a mente. O Self é a história sem palavras que o cérebro conta a si mesmo para avisar que você é o dono da sua própria vida e das coisas que está sentindo agora.

Seni: (Sorrindo) Por isso Damásio diz que a consciência começa como uma "história sem palavras". É a história primordial de como o estado do corpo é alterado ao encontrar um objeto. Quando o cérebro conta essa história para si mesmo, surge o sentimento de um sentimento — a resposta espontânea para uma pergunta que o organismo nunca formulou verbalmente: "A quem pertencem estas imagens?"

Anicaroh: (Refletindo alto) E veja a ironia que ele aponta no trecho "Esconde-esconde": a nossa mente moderna usou a profusão de imagens do mundo externo como uma tela para cobrir o próprio corpo. Mas, na Antiguidade, quando chamavam a mente de psiquê — palavra também usada para sangue e respiração —, talvez se percebesse com mais clareza que sob cada pensamento jaz a maré contínua dos nossos estados corporais internos.

Airam: (Olhando a penumbra que agora toma a varanda) No fim das contas, a consciência não é o topo da evolução, mas a faísca que conecta o santuário da regulação da vida com o universo das imagens. Ela nos dá a capacidade de antever, planejar e escolher. Como diz o texto, ela nos retira da simples sobrevivência automática e nos inaugura no esforço da autopreservação consciente.

Ycrad: (Levantando sua xícara em um brinde silencioso) E assim, a ciência não desfaz a dignidade da mente humana. Saber que ela é tecida em um quilo e meio de carne e sangue não profana o mistério; pelo contrário, ensina-nos a olhar para a fragilidade da vida com ainda mais reverência.

Nnaor: (Concluindo) A consciência é o alvorecer. O meio-dia — a ética, a arte, a compaixão e a busca pelo conhecimento — depende do simples fato de termos saído à luz.

A jornada percorrida por Arturo, Seni, Ycrad, Anicaroh, Airam, Nnaor e Leirbag demonstra como Antônio Damásio realiza uma das tarefas mais nobres da ciência moderna: desmistificar a consciência sem despir a experiência humana de sua poesia e significado.

Ao descomplicar conceitos tão densos — mostrando que os qualia são a própria textura viva das nossas sensações e que o Self é a âncora que nos torna donos do que sentimos —, o diálogo revela uma verdade transformadora. Não somos observadores distantes alojados em uma mente abstrata; somos um organismo vivo, cujo cérebro traduz os sobressaltos e os equilíbrios do corpo em uma narrativa contínua. O Proto-self nos mantém vivos nos bastidores; o Self Central nos acorda para o instante presente; e o Self Autobiográfico nos presenteia com o tempo, com a memória e com a capacidade de projetar o futuro.

Desvelar a mecânica cerebral não apequena o mistério da existência; ao contrário, engrandece-o. Compreender que a empatia, a arte, a ética e a compaixão dependem desse arranjo biológico sutil nos lembra da nossa própria vulnerabilidade. A consciência não é o fim da história, mas o limiar: o instante exato em que a vida deixa de apenas reagir ao mundo para, finalmente, sair à luz e saber


Blog Author Image

Articulista/Colunista

João Batista Neto

Professor, palestrante, Advogado, Administrador e Psicólogo.

Contribua. Comente!

O que achou deste artigo?



Parceiros Quem apoia o Jornal O GUARANI
Ideal
Nei
Paladar
Casa de Carnes Lobrito
Comercial Lobrito
Governo do Amapá
Rêsto da FAB
Ideal
Paladar
Paladar
Casa de Carnes Lobrito
Comercial Lobrito
Governo do Amapá
Rêsto da FAB

Watch Live

Live Tv
Author

Polical Topic

by Robert Smith