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De janeiro a julho, foram mais de 1 milhão de mililitros arrecadados e 880 bebês beneficiados - Fotos:Gabriel Maciel
Um ato que alimenta esperança: doação de leite humano transforma solidariedade em cuidado para bebês internados no Amapá
Por: Karla Marques -


Um ato que alimenta esperança: doação de leite humano transforma solidariedade em cuidado para bebês internados no Amapá

Banco de Leite Humano da Maternidade Mãe Luzia já beneficiou de janeiro e julho mais 880 recém-nascidos.

A maternidade costuma ser marcada por encontros, primeiros olhares e a expectativa de levar o bebê para casa. Para algumas famílias, porém, esse momento acontece de uma maneira diferente. Quando o recém-nascido precisa permanecer internado, especialmente em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) neonatal, cada cuidado passa a ter um significado ainda maior.

É nesse cenário que o leite humano doado se transforma em alimento, proteção e solidariedade. Na Maternidade Mãe Luzia, o Banco de Leite Humano recebe a produção de mulheres que, além de alimentar os próprios filhos, conseguem compartilhar parte do leite com bebês que precisam desse alimento durante a internação.

Entre janeiro e julho de 2026, o serviço registrou 1.717 doadoras cadastradas, 48.340 atendimentos, 880 bebês receptores e 1.024.256 mililitros de leite doado. A arrecadação média atual é de aproximadamente 100 mil mililitros por semana.

A importância da doação ganhou um significado especial para Maria Lúcia de Oliveira. Moradora de Gurupá, no Pará, ela veio para Macapá para ter o filho, que nasceu há seis dias e precisou ser internado na UTI após apresentar dificuldades para respirar.

Foi a necessidade do próprio bebê que fez Maria Lúcia conhecer o trabalho do Banco de Leite. Antes disso, ela nunca havia pensado em ser doadora.

"Foi por causa do meu menino. Esse e meu quinto filho, mais eu não tinha pensado aimda nessa possibilidade. Foi ver meu filho passando por essa situação que eu percebi a importância desse gesto", contou.

Ao acompanhar a rotina dos bebês internados, Maria percebeu que a necessidade não era apenas do filho dela. Outras mães também aguardavam pelo alimento para seus recém-nascidos.

"A demanda é grande, muito bebês precisam desse leite. E o ato de doar é uma ação grandiosa e que pode ajudar a alimentar e salvar a vida desses bebês", relatou.

A emoção aumentou ao saber que o leite retirado por ela poderia contribuir para alimentar outras crianças. "Sem palavras", disse, ao falar sobre a possibilidade de o leite beneficiar outros bebês além do próprio filho.

A experiência também revelou uma realidade que Maria Lúcia não conhecia antes: para algumas famílias, o leite humano doado pode representar um apoio importante enquanto o bebê permanece internado e precisa de cuidados especializados.

Solidariedade que chega aos bebês que mais precisam

O leite humano doado é utilizado principalmente para atender recém-nascidos internados que apresentam maior vulnerabilidade, como prematuros, bebês de baixo peso e crianças que, por condições clínicas, não podem ser amamentadas diretamente pela própria mãe.

Nessa fase, o leite humano tem papel importante na nutrição e na proteção do recém-nascido, contribuindo para o desenvolvimento e para a recuperação durante a internação.

O trabalho do Banco de Leite integra a assistência aos bebês atendidos na rede pública e permite que o alimento produzido por uma mulher possa chegar a outra criança que enfrenta os primeiros dias ou semanas de vida em uma unidade neonatal.

Quem pode doar

A doação é destinada a mulheres que estão amamentando e apresentam condições de saúde adequadas. Antes de iniciar o processo, a interessada passa por cadastro e recebe orientações da equipe especializada.

O Banco de Leite acompanha a doadora durante o processo e fornece os materiais necessários para que a coleta seja realizada de maneira segura.

"A partir do cadastro, a mulher recebe os frascos de vidro esterilizados utilizados para armazenar o leite e orientações sobre higiene, retirada e conservação. A equipe também disponibiliza a coleta domiciliar por meio da Rota Domiciliar do Banco de Leite. Assim, a mulher não precisa interromper a rotina para levar o leite até a unidade. Depois de coletado e armazenado corretamente, o alimento é recolhido pela equipe responsável." explicou a coordenadora do Banco de leite humano, Belizia Kyarelle Oliveira.

Cada etapa exige cuidado

A segurança do leite começa ainda na casa da doadora. O ambiente de coleta deve estar limpo, tranquilo e sem circulação desnecessária de pessoas.

A manutenção das doações é fundamental para garantir a assistência aos bebês que dependem do alimento durante a internação

A mulher deve lavar corretamente as mãos, os braços e as mamas antes da coleta e utilizar touca e máscara, fornecidas pelo Banco de Leite. Antes da retirada, a orientação é massagear as mamas com as pontas dos dedos e desprezar os primeiros jatos de leite.

O alimento deve ser colocado somente nos frascos de vidro esterilizados fornecidos pelo serviço.

Depois da coleta, o recipiente precisa ser identificado com o nome completo da doadora, data e horário. Em seguida, deve ser acondicionado em uma sacola plástica e colocado imediatamente no congelador.

O leite pode permanecer congelado por até dez dias até a retirada pela equipe. Uma das orientações importantes é não descongelar o conteúdo para acrescentar uma nova coleta ao mesmo frasco.

Segundo a coordenadora do Banco de Leite Humano, seguir corretamente essas orientações é fundamental para evitar perdas.

"Temos doação, mas infelizmente uma grande parte está sendo descartada. A equipe orienta, mas percebemos a necessidade de reforçar ainda mais as informações", explicou.

Entre os problemas identificados estão a sujidade e alterações provocadas pelo armazenamento inadequado. Por isso, o serviço reforça que cuidados simples podem fazer diferença para que o leite coletado chegue em condições de ser utilizado.

Da coleta ao bebê

Depois de chegar ao Banco de Leite Humano, o leite passa por etapas de seleção, avaliação e controle de qualidade. O alimento é submetido ao processamento e à pasteurização antes de ser disponibilizado aos bebês.

Esse processo garante que o leite destinado aos recém-nascidos seja analisado e tratado de acordo com os protocolos de segurança adotados pelo serviço.

Para Belizia, a manutenção das doações é fundamental para garantir a assistência aos bebês que dependem do alimento durante a internação.

A média atual de arrecadação é de aproximadamente 100 mil mililitros por semana. Mesmo com a participação de milhares de mulheres ao longo do ano, a equipe reforça a necessidade de novas doadoras e da continuidade das mulheres que já participam da iniciativa.

Uma gota que pode chegar muito longe

Os números ajudam a dimensionar o alcance de um gesto que começa de maneira simples: uma mulher que amamenta e decide compartilhar parte do leite que produz.

De janeiro a julho, foram mais de 1 milhão de mililitros arrecadados e 880 bebês beneficiados. Por trás desses números estão recém-nascidos que permanecem longe do colo da família, conectados a equipamentos e acompanhados por equipes especializadas.

Para essas crianças, o leite humano representa mais do que alimentação. É parte do cuidado necessário para atravessar um período delicado da vida.

Por isso, o Banco de Leite reforça o convite para que mulheres que estão amamentando e atendem aos critérios de doação procurem o serviço. A equipe oferece orientação, fornece os frascos e realiza a coleta domiciliar.

"Cada gota de leite materno é um ato de amor. Com cuidado e informação, conseguimos evitar desperdícios e salvar mais vidas", destaca a coordenadora.

Como se tornar doadora

As interessadas podem procurar o Banco de Leite Humano da Maternidade Mãe Luzia, na Avenida FAB, nº 1070, edifício Office Center, Centro de Macapá.

Também é possível entrar em contato com a Rota Domiciliar pelo WhatsApp (96) 98416-4400 para receber as orientações.

O Banco de Leite realiza o cadastro, fornece os recipientes esterilizados, orienta sobre a coleta e o armazenamento e faz o recolhimento do leite na residência da doadora.

Para uma mãe, pode ser apenas o excedente de uma mamada. Para um bebê internado, pode significar alimento, proteção e mais uma forma de cuidado em um momento em que cada gesto importa.



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