Da Guiana ao Amapá: o petróleo que pode reescrever o mapa econômico da América do Sul
PIB da Guiana deve crescer quase 20% em 2027, e boom do petróleo já supera indicadores de potências como EUA e Alemanha.
A Guiana, país de pouco mais de 800 mil habitantes, virou o principal exemplo latino-americano do poder transformador (e dos riscos) do petróleo. Dois levantamentos recentes ajudam a entender esse fenômeno e por que ele interessa diretamente ao Brasil.
Segundo a Cepal, a Guiana deve crescer 16,2% em 2026 e 19,7% em 2027, mantendo o posto de economia que mais avança na região. Em 2025, o PIB já havia saltado 19,3%. O FMI confirma o ritmo: expansão média de quase 40% ao ano entre 2023 e 2024, com a produção de petróleo batendo 900 mil barris por dia no fim de 2025, alta de 35% em apenas um ano.
O detalhe que chama atenção é que a economia não petrolífera também cresce forte, cerca de 14%, puxada pela construção civil, agricultura, mineração e indústria. Isso ajuda a explicar outro dado impressionante: o PIB per capita da Guiana já ultrapassou o dos Estados Unidos e da Alemanha, aproximando se de patamares comparáveis aos da Suíça, algo impensável para um país que, até a descoberta das primeiras grandes reservas em 2015, tinha uma das economias mais modestas do continente.
As reservas guianenses somam entre 11 bilhões e 11,6 bilhões de barris. O secretário executivo da Cepal, José Manuel Salazar Xirinachs, estima que esse ciclo pode se estender por anos, com pico de exploração projetado para por volta de 2035. Por isso, tanto a Cepal quanto o FMI insistem no mesmo ponto: o desafio não é manter o crescimento agora, e sim diversificar a economia (indústria, turismo, tecnologia, serviços) antes que a produção comece a declinar, em um modelo que analistas já comparam ao fundo soberano da Noruega.
O FMI também sinaliza pontos de atenção: crescimento acelerado dos salários, valorização cambial e uma inflação que, depois de ficar em 3,3% em 2025, voltou a subir em meados de 2026 com a pressão global de energia e alimentos.
O que isso significa para o Amapá
A Guiana e o litoral do Amapá compartilham a mesma formação geológica offshore, a Margem Equatorial, responsável pelas descobertas bilionárias guianenses. Em agosto de 2026, a Petrobras confirmou a presença de hidrocarbonetos no bloco FZA M 59, na costa amapaense, um primeiro passo relevante no mapeamento da porção brasileira dessa bacia.
A cautela, porém, é essencial. A própria Petrobras estima entre 7 e 10 anos o intervalo entre a fase exploratória atual e uma eventual produção comercial, caso a viabilidade do campo seja confirmada. A Guiana levou cerca de sete anos entre a primeira descoberta, em 2015, e a explosão de crescimento que hoje a coloca acima de potências globais. É esse intervalo, entre achar petróleo e sentir seus efeitos na economia, que dá a medida realista do que o Brasil pode esperar da Margem Equatorial nos próximos anos.
Análise produzida a partir de dados publicados pela Bloomberg Línea (com base em relatórios da Cepal e do FMI) e pelo Brasil247/O Globo (com base em levantamentos do FMI, Banco Mundial e OCDE, e em comunicado da Petrobras).
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