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O que 100 dias de guerra ensinam sobre energia

O que 100 dias de guerra ensinam sobre energia


Com o conflito entre EUA e Irã se estendendo por 104 dias, o choque no petróleo e no GNL não levou apenas a mais renováveis. Em muitos lugares, levou a mais carvão — e isso revela o verdadeiro desafio energético do século.

Enquanto parte do mundo discutia metas de descarbonização, neutralidade climática e expansão das energias renováveis, dezenas de termelétricas a carvão voltavam a operar com intensidade maior na Ásia. Não é exatamente a imagem que costuma aparecer nas conferências internacionais sobre clima, mas foi ela que emergiu dos primeiros cem dias do conflito que voltou a sacudir o Oriente Médio. O mesmo período que registrou recordes de investimento em energia limpa também registrou aumento na demanda por carvão. A mesma crise que encareceu petróleo e gás natural não acelerou apenas a transição energética, em muitos casos, fortaleceu justamente a fonte que todos diziam querer deixar para trás.

Durante muito tempo, o debate energético foi simplificado em excesso. Como se o grande desafio do século fosse apenas substituir uma fonte por outra. Petróleo por solar. Gás por eólica. Carvão por baterias. A realidade é menos elegante e muito mais teimosa. Sistemas energéticos não funcionam como campanhas publicitárias, nem como apresentações corporativas. Funcionam sob pressão. E foi exatamente isso que os últimos cem dias revelaram.

Quando os preços do petróleo dispararam e o mercado internacional de GNL entrou em tensão, governos e operadores precisaram tomar decisões rápidas. Segundo projeções repercutidas por consultorias internacionais, o fechamento de Ormuz destruiu algo entre quatro e cinco milhões de barris por dia de demanda em determinados momentos. À primeira vista, o número poderia ser celebrado por quem acredita que reduzir o consumo de combustíveis fósseis é sempre uma boa notícia. Mas a pergunta correta é outra: por que essa demanda desapareceu?

Ela não desapareceu porque milhões de pessoas compraram veículos elétricos da noite para o dia. Não desapareceu porque a eficiência energética deu um salto tecnológico repentino. Em boa parte dos casos, desapareceu porque a energia ficou mais cara, mais escassa ou mais difícil de acessar. Existe uma diferença enorme entre reduzir consumo por inovação e destruir demanda por crise econômica.

Enquanto isso, outro movimento acontecia longe dos holofotes. A Rystad Energy projetava um aumento de cerca de 70 milhões de toneladas na demanda por carvão na Ásia e um déficit global de aproximadamente 35 milhões de toneladas de GNL. Em países que dependem fortemente de importações de gás, a matemática é brutalmente simples. Se o combustível que abastece o sistema encarece ou desaparece, alguém precisa ocupar seu lugar. E esse lugar, muitas vezes, continua sendo o carvão. Não porque ele seja desejado, mas sim porque ele está disponível.

Essa distinção ajuda a entender por que o debate energético raramente se comporta como o debate político. Políticos, ativistas e até parte da imprensa costumam discutir fontes. Operadores discutem confiabilidade. Quando a luz precisa acender, quando uma indústria não pode parar ou quando uma cidade depende do funcionamento contínuo de sua infraestrutura, a pergunta muda. Ninguém quer saber qual é a fonte mais popular do momento. A pergunta passa a ser qual fonte ainda consegue sustentar o sistema.

É por isso que os investimentos globais estão contando uma história diferente daquela que aparece nas manchetes mais simplificadas. A Agência Internacional de Energia registra crescimento recorde da capacidade solar instalada no mundo, ao mesmo tempo em que observa expansão de investimentos em redes elétricas, armazenamento, gás natural, segurança energética e reforço da infraestrutura. Não há incoerência nisso. O mundo está descobrindo que produzir energia é apenas parte do desafio. A outra parte é fazê-la chegar.

O Brasil conhece bem essa discussão, embora ela apareça pouco fora dos círculos especializados. Nos primeiros meses deste ano, o Operador Nacional do Sistema registrou cortes superiores a 2.800 MW médios de geração renovável. Não faltava vento. Não faltava sol. Faltava capacidade de absorção do sistema. Em alguns momentos, a energia existia, mas não conseguia chegar onde era necessária. É uma situação curiosa para um país que construiu boa parte de sua identidade energética sobre a abundância de recursos naturais.

Talvez por isso o Amapá ofereça uma perspectiva interessante sobre esse debate. Poucos estados brasileiros convivem simultaneamente com abundância energética e limitações estruturais tão evidentes. O território produz energia em escala muito superior ao seu consumo local, participa de uma das matrizes elétricas mais limpas do planeta e, mesmo assim, continua distante dos grandes centros industriais do país. A questão nunca foi apenas gerar energia. A questão sempre foi transformar energia em capacidade econômica, infraestrutura e competitividade.

O aniversário de cem dias da guerra EUA-Israel e Irã mostrou que sistemas energéticos não são medidos, apenas, pela quantidade de energia que conseguem produzir em condições ideais. Eles são medidos pela capacidade de continuar funcionando quando as condições deixam de ser ideais.

Para o Brasil, e especialmente para regiões ricas em recursos, mas carentes de infraestrutura como o Amapá, a lição é urgente: de nada adianta o pioneirismo ambiental e o potencial renovável se o sistema falha em entregar segurança jurídica, transmissão eficiente e estabilidade.

Foi nesse contexto de conflito e estrangulamento de rotas globais que reapareceu a palavra confiabilidade — um termo técnico, pouco glamourosa para os discursos políticos, mas vital para quem opera o sistema.

Quando o mundo entra em crise, governos não escolhem as fontes por sua estética, mas por sua disponibilidade. Garantir que as luzes continuem acesas e que a energia se transforme em riqueza regional será o verdadeiro divisor de águas entre as nações que apenas assistem à história e aquelas que constroem o próprio desenvolvimento.

 

Elissandro Araújo é professor, palestrante e especialista em energia, governança pública e corporativa e desenvolvimento regional.


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Elissandro Araújo

Professor, palestrante e especialista em energia, governança pública e corporativa e desenvolvimento regional.

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