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A coordenadora do projeto, professora Aylene Bousquat, durante reunião com a reitora da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) e equipes locais em Santarém, em julho de 2025. (Crédito da imagem: Arquivo pessoal)
Pós-graduandos do ICMC desenvolvem tecnologia para ampliar acesso à saúde em regiões vulneráveis
Por: Redação -


Pós-graduandos do ICMC desenvolvem tecnologia para ampliar acesso à saúde em regiões vulneráveis

Lucas Araujo e Alison Sousa integram projeto interinstitucional, coordenado pela Faculdade de Saúde Pública da USP, que busca diminuir iniquidades de saúde em regiões remotas do Baixo Amazonas e do Tapajós.

Imagine estar grávida, com dor de dente ou precisando controlar a pressão arterial e ter de navegar horas por rios caudalosos para conseguir chegar a uma unidade básica de saúde (UBS). Além do tempo gasto no deslocamento, o acesso ao atendimento exige recursos financeiros que muitas famílias simplesmente não têm. Essa é a realidade de cerca de milhões de brasileiros.

É nesse cenário que se insere o projeto Tecendo Linhas do Cuidado Integral à Saúde na Amazônia, iniciativa coordenada pela professora  Aylene Emilia Moraes Bousquat, da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP. A proposta, financiada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e pela Associação Umane, busca diminuir as iniquidades de saúde em comunidades ribeirinhas, indígenas e isoladas do Baixo Amazonas e do Tapajós, nos estados do Pará e do Amazonas. A proposta busca fortalecer à atenção primária e implementar soluções tecnológicas adaptadas à realidade do território.

A equipe do projeto é composta por pesquisadores de diferentes áreas e instituições do país, entre eles, dois alunos do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP, em São Carlos: o mestrando Alison Cordeiro Sousa e o doutorando Lucas Padilha Modesto de Araujo, ambos da área de Ciência da Computação. Selecionados para atuar como bolsistas, os dois desenvolvem um aplicativo que será disponibilizado para pacientes e profissionais de saúde das UBS.

Como foi a escolha – De acordo com a coordenadora do projeto, professora Aylene Emilia Moraes Bousquat, da FSP USP, a escolha dos jovens pesquisadores ocorreu a partir do diálogo com o professor Adenilso Simão, do ICMC. “Comentei com ele que estávamos enfrentando dificuldades com empresas que não compreendiam a natureza social da proposta, e ele sugeriu recrutar alunos do ICMC”, relata.

A partir dessa conversa, um e-mail de divulgação foi enviado aos estudantes de pós-graduação do Instituto. Os interessados passaram por um processo seletivo que considerou a trajetória acadêmica, a capacidade de atuar de forma interdisciplinar e o interesse em desenvolver soluções tecnológicas adaptadas à realidade da Amazônia. “Buscávamos estudantes que não apenas dominassem as ferramentas técnicas, mas que estivessem dispostos a compreender o território, dialogar com as equipes de saúde e construir soluções junto com quem está na ponta do sistema”, esclarece a professora.

Segundo Aylene Bousquat, a participação dos pós-graduandos do ICMC tem sido primordial para o avanço do projeto. “Eles ajudam a traduzir necessidades complexas da atenção primária em ferramentas digitais viáveis, seguras e adaptadas à realidade amazônica, algo que dificilmente seria possível sem essa parceria interdisciplinar”, afirma a docente da FSP.

Desenvolvimento do projeto – O Tecendo Linhas do Cuidado Integral à Saúde na Amazônia vem sendo desenvolvido em diversas frentes relacionadas à Atenção Primária à Saúde (APS). O aplicativo, que vem sendo desenvolvido desde dezembro de 2025, tem como objetivo principalmente aumentar a capacidade de comunicação entre usuários e equipes de saúde e promover o autocuidado dessas populações. Os pós-graduandos afirmam que a tecnologia está em fase de implementação. “Temos reuniões frequentes com a equipe de saúde. A gente apresenta um protótipo e recebe retornos muito diretos: o que funciona, o que não funciona, o que precisa mudar. Isso orienta completamente o desenvolvimento”, ressalta Lucas.

Entre outras funcionalidades, a ferramenta vai permitir:

  • Registro de sinais vitais: os usuários vão receber aparelho de pressão, balança, aparelho para medir a glicose e poderão incorporar os dados do app;
  • Comunicação direta: Função “Converse Conosco” para envio de mensagens e solicitações à equipe de saúde;
  • Painéis de Monitoramento: Painéis interativos que listam os pacientes e os classificam por cores: Casos Críticos (vermelho), Atenção Necessária (amarelo) e Estáveis (verde);
  • Alertas em Tempo Real: Geração automática de avisos baseados em regras clínicas, como “Crise Hipertensiva”, “Glicemia Crítica” ou “Ganho de peso insuficiente” na gestação;
  • Gráficos de Evolução: Visualização interativa do histórico de indicadores (como curvas de peso ou pressão) para análise de tendências;
  • Prontuário Digital: Acesso a registros estruturados de atendimentos, anotações clínicas e histórico de medicamentos.

De acordo com Alison, o principal desafio é garantir que o aplicativo funcione tanto online quanto offline. “A ideia é que o profissional consiga registrar os dados normalmente e, quando houver conexão, tudo seja sincronizado automaticamente”, relata.

Essa abordagem garante que o cuidado em saúde não dependa da infraestrutura de conectividade, ainda escassa em muitas áreas do Baixo Amazonas e do Tapajós.

O mestrando também destaca que o sistema já incorpora mecanismos de segurança da informação, como controle de acesso, registro de atividades e uma adequação inicial à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Segundo Alison, embora o foco atual esteja na aplicação de regras clínicas simples e em processos de engenharia de dados, o projeto pretende, em etapas futuras, a incorporação de recursos de inteligência artificial (IA). “A ideia é que, com o acúmulo de dados históricos e a devida validação clínica, seja possível aplicar técnicas de machine learning para aprimorar o que já existe hoje, criando modelos preditivos, identificando padrões mais complexos nos sinais vitais e apoiando a tomada de decisão dos profissionais de saúde”, explica Alison.

Já o doutorando Lucas ressalta que está prevista uma ida a campo para que os desenvolvedores possam acompanhar de perto o uso da ferramenta nas comunidades atendidas. “Nada substitui ouvir quem está na ponta. É o profissional de saúde que vai dizer se algo faz sentido ou não no dia a dia”, afirma.

Da computação à saúde pública – Para o doutorando Lucas de Araujo, a motivação em participar do projeto envolve não só o desejo de contribuir com a ciência, mas também por um aspecto pessoal. Ele conta que sua maior inspiração vem da convivência com a mãe, que tem epilepsia, experiência que o levou a direcionar sua trajetória acadêmica para o desenvolvimento de tecnologias capazes de identificar crises de saúde antes que ocorram eventos graves, como quedas ou desmaios. No doutorado, ele trabalha com ferramentas voltadas à identificação de crises epilépticas e ao monitoramento de pacientes. A participação no Tecendo Linhas, segundo ele, permite manter-se imerso no universo da saúde, lidando com sinais vitais e dados clínicos que dialogam diretamente com seus estudos sobre o cérebro e o cuidado contínuo.

Já o mestrando Alison é movido pelo potencial da transformação digital na gestão pública. Desde a graduação, ele  conta que tem interesse em compreender como políticas orientadas por dados podem promover melhorias concretas nos serviços públicos e gerar impacto social. “Mesmo não sendo da área da saúde, sempre tive interesse em como a tecnologia pode ajudar a melhorar serviços públicos e gerar impacto social”, afirma.

No mestrado, Alison desenvolve pesquisas na interface entre saúde, gestão pública e tecnologia. O projeto tem servido como base prática para sua produção acadêmica, que já resultou na submissão de artigos a periódicos científicos qualificados, como o Journal of Information and Data Management, além de orientar seus planos de seguir carreira na área de inteligência artificial aplicada à saúde pública.

Impacto que vai além – Embora o projeto tenha foco inicial no Baixo Amazonas e no Tapajós, a ambição é maior. A equipe trabalha para que a solução possa ser integrada ao SUS e adaptada a outras regiões do país. “Se der certo lá, o aplicativo pode, inclusive, ser ampliado para outros lugares, porque estamos testando no cenário mais adverso possível”, assegura a coordenadora do projeto, professora Aylene Bousquat.

 

Texto: Gabriele Maciel, da Fontes Comunicação Científica

 

Mais informações
Acesse o site do projeto: https://juntospelasaude.org.br/projetos/tecendo-linhas-do-cuidado-integral-a-saude-na-amazonia/
Acompanhe o projeto no Instagram: @tecendoamazonia


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