Dia Nacional de Combate ao Fumo: cigarro pode acelerar doenças oculares e comprometer a visão
Oftalmologista explica como as substâncias presentes no tabaco afetam a retina, o nervo óptico e outras estruturas dos olhos
Para muitas pessoas, acender um cigarro ainda é visto como uma forma rápida de aliviar o estresse, controlar a ansiedade ou simplesmente fazer uma pausa durante o dia. O hábito, porém, está longe de ser inofensivo, e seus efeitos não se restringem aos pulmões e ao coração. No Dia Nacional de Combate ao Fumo, celebrado em 29 de agosto, o alerta também chega à saúde ocular: a exposição contínua às substâncias tóxicas do tabaco pode comprometer estruturas essenciais para a visão e aumentar o risco de doenças capazes de causar perdas visuais permanentes.
Segundo o Dr. Michel Farah, Prof. Titular de Oftalmologia da EPM / UNIFESP e médico da unidade Ceosp do H.Olhos – referência da especialidade na capital e ABC paulista, o cigarro interfere em mecanismos fundamentais para o funcionamento dos olhos. “A visão depende de uma circulação sanguínea adequada e de um equilíbrio muito delicado entre oxigenação e funcionamento das células da retina e do nervo óptico. O tabagismo provoca alterações vasculares, favorece o estresse oxidativo e aumenta a exposição desses tecidos a substâncias tóxicas”, explica.
Entre as estruturas mais vulneráveis está a retina, tecido localizado no fundo do olho responsável por captar a luz e transformar os estímulos luminosos em informações que serão interpretadas pelo cérebro. A região central da retina, chamada mácula, também pode ser afetada pelo tabagismo, aumentando o risco de desenvolvimento e progressão da degeneração macular relacionada à idade, conhecida como DMRI.
“A DMRI compromete justamente a região responsável pela visão central e pelos detalhes. O paciente pode apresentar dificuldade para ler, reconhecer rostos ou realizar atividades que exigem precisão visual. O cigarro não é o único fator envolvido na doença, mas é um dos fatores de risco modificáveis mais importantes”, pontua o especialista.
O tabagismo também está associado a alterações no nervo óptico, estrutura responsável por levar os estímulos visuais dos olhos até o cérebro. A agressão contínua provocada pelo cigarro pode contribuir para alterações vasculares e metabólicas que prejudicam o seu funcionamento e podem favorecer a perda de fibras nervosas.
“O nervo óptico tem uma capacidade limitada de regeneração. Quando há perda de suas fibras, a recuperação pode ser muito difícil ou até impossível. Por isso, qualquer fator que aumente a vulnerabilidade dessa estrutura merece atenção, especialmente em pessoas que já apresentam outros fatores de risco para doenças como o glaucoma”, alerta o Dr. Michel Farah.
Outro problema relacionado ao tabagismo é a catarata, caracterizada pela opacificação progressiva do cristalino, a lente natural dos olhos. O estresse oxidativo provocado pela exposição às substâncias presentes na fumaça do cigarro pode contribuir para alterações nessa estrutura e aumentar a possibilidade de desenvolvimento da doença.
“O cristalino é particularmente sensível ao processo de oxidação. A exposição prolongada ao cigarro favorece alterações que podem acelerar a perda de transparência dessa lente. O resultado é uma visão progressivamente mais embaçada, com redução da qualidade visual e maior dificuldade para atividades cotidianas”, afirma o oftalmologista.
A superfície ocular também não fica protegida. A fumaça pode provocar irritação, ardência, vermelhidão e sensação de ressecamento, agravando sintomas relacionados à síndrome do olho seco. O problema pode atingir tanto quem fuma quanto pessoas expostas frequentemente à fumaça do cigarro.
“Os olhos entram em contato direto com a fumaça, e isso provoca uma agressão à superfície ocular. É comum que a pessoa apresente desconforto, sensação de areia nos olhos, ardência e vermelhidão. Mesmo quando os sintomas parecem simples, a exposição repetida mantém um processo de irritação que pode prejudicar a qualidade de vida”, destaca.
Para o Dr. Michel Farah, a interrupção do tabagismo é uma das principais medidas que podem ser adotadas para reduzir riscos e preservar a saúde ao longo dos anos. O acompanhamento oftalmológico também é importante para identificar precocemente alterações que muitas vezes não provocam sintomas nas fases iniciais.
“Algumas das principais doenças relacionadas ao tabagismo podem evoluir de maneira silenciosa. A pessoa pode continuar enxergando aparentemente bem enquanto alterações importantes já estão acontecendo. Parar de fumar é fundamental, mas também é necessário manter consultas oftalmológicas periódicas, principalmente quando existem outros fatores de risco”, orienta.
O Dia Nacional de Combate ao Fumo, portanto, representa uma oportunidade para ampliar a discussão sobre os impactos do cigarro e reforçar que abandonar o hábito beneficia não apenas os pulmões e o coração, mas também os olhos.
“Cuidar da visão começa muito antes de perceber qualquer alteração. Evitar o cigarro é uma escolha que protege diferentes órgãos e também contribui para preservar a capacidade de enxergar. Quanto mais cedo a pessoa interromper o tabagismo, melhor será para a saúde como um todo e para a visão ao longo da vida”, conclui o Dr. Michel Farah.
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